A “Droga” da Nostalgia

Artigos/Opinião

Uma gravação é uma sombra do porvir – Miguel de Unamuno [A Agonia do Cristianismo]

Nossa vida é feita de inumeráveis experiências e memórias. Todos nós possuímos, em algum canto de nossas mentes, um conjunto de boas lembranças, algumas delas buscamos repetir, revisitar, outras são impossíveis de serem repetidas em nossa efêmera vida. Por exemplo, momentos vividos em nossa infância, um sabor ou cheiro que nos remete a algo bom em nosso passado. Por certo, não podemos amar todo o passado, nem todas as experiências que tivemos, visto que em algum canto menos frequentado de nossa mente acumulam-se as más lembranças, aquelas das quais nos arrependemos, buscamos fugir, ou ainda, que eventualmente foram-nos úteis como aprendizado.

Muitas vezes, tais experiências se materializam tornam-se fotografias, souvenires, quinquilharias que espalhamos pela casa, nas estantes, mesas de centro da sala de estar, no HD do computador, na memória do celular. Todo esse conjunto cria a nossa história particular, molda nosso caráter e faz-nos ser quem somos!¹ Este misto de percepções sensoriais, melancolia e saudade é aquilo que comumente chamamos “nostalgia”. Palavra que vem do grego νόστος (Nóstos — Retorno) e άλγος (Álgos — dor, sofrimento)

Primeiramente, a nostalgia foi diagnosticada pela medicina como uma doença. Comum entre viajantes e mercenários², visto que estes passavam muito tempo longe de seus lares e de seus semelhantes. Os principais sintomas desta “doença“ eram as constantes crises de choro, taquicardia e, em alguns casos, a febre. Posteriormente, já com a ciência psicológica bem definida e com a intensificação de processos migratórios por todo o mundo, a gana de repetir as boas experiências vindas do passado foi compreendida como um sentimento comum.

Com tudo o que foi dito anteriormente, podemos deduzir que a nostalgia é um sentimento comum entre todos nós, seres humanos dotados de cognição e memória. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma relação pessoal a qual possuímos com o tempo, tendemos a rememorar e, às vezes, idealizar nossas experiências particulares, certo?

Antes de tirarmos nossas conclusões, vamos procurar compreender um fenômeno que vem transformando consciências desde o século passado; nascido com a expansão dos meios de comunicação, — desde os periódicos, cinema e televisão -, e que segue se renovando e expandindo com as tecnologias, a Internet, os aplicativos, smartphones e o streaming. Junto dessa expansão novas relações surgiram com a cultura, não mais tratando-se de cultura popular e cultura erudita, alta e baixa cultura, mas de um produto padrão, standard, pronto a ser consumido, ou seja, um produto industrializado. A isso, Adorno e Horkheimer denominam “Indústria Cultural”. Sua concepção, obviamente, está repleta de questões como consciência de classes, dominantes e dominados, transformação social, as quais não serão, pois, o objeto desta análise.

“Dime quién te divierte, y te diré quién te domina” diria o Padre Leonardo Castellani, ao parafrasear o famoso ditado. Por isso, devemos nos perguntar: quem domina nossa nostalgia? E a resposta, não surpreendentemente, vai cair em algum subproduto da indústria cultural: um personagem bigodudo de um jogo de vídeo-game, algum Anime que marcou nossa infância, um personagem de filme, ou talvez de algum desenho animado Ocidental, um conjunto de músicas que tocavam na rádio quando éramos mais jovens, talvez, alguma peça de roupa que era moda no passado.

A demanda criada na nossa infância, torna a aparecer agora que somos “adultos saudosistas” desejosos por retornar ao nosso passado, por isso está tão em alta o chamado “Marketing Nostálgico”, procurando resgatar pequenas partes da nossa infância. E nós, saudosistas que somos, estamos prontos à atender a esta demanda.

Com isso, não surpreende o fato de Hollywood, procurando aproveitar-se de nosso apego pelo passado, tem investido, cada vez mais nos chamados “Reboots/Remakes”, ou seja, recontar a mesma história, que já foi contada décadas atrás, mas com uma linguagem e tecnologias mais atuais. Por isso, versões de Robocop, Star Wars, O Vingador do Futuro, Rei Leão, Aladdin, — isso só para citar alguns — , são sucesso de bilheteria. Aquilo que deveria conotar uma falta de criatividade absurda é algo que nos enche de expectativas e muitas vezes de decepções, — visto que a nova abordagem raramente mantém-se fiel àquela obra original que tanto nos apegamos no passado, assim, não suprindo nossa carência.

Nosso voto também pode ser guiado pela nostalgia. E a política, quem diria, também reserva espaço propício para ela. Quando propagandas políticas buscam nos relembrar “períodos de abundância econômica”, ou ainda, “períodos de moralidade”, que surgem em períodos de crise seja econômica ou da descrença nas instituições. Não fazem outra coisa que não apelar à nostalgia, vide o Slogan usado na campanha de Donald Trump, em 2016: “Make America Great Again” que, por sinal, também foi usado na campanha de Ronald Reagan, outro republicano, em 1980.

Retornando ao âmbito cultural, urge salientar que tal fenômeno não se restringe somente à sétima arte, tomemos por exemplo, o caça-níquel das versões remasterizadas no âmbito musical. Nas séries, adaptações de histórias de histórias de quadrinhos clássicas, como é o caso de Watchmen, memorável obra de Alan Moore dos Anos 80. Mas uma chama atenção em especial, trata-se de Stranger Things, produto da chamada “moda retrô”: onde elementos oitentistas e noventistas, alçaram novos status. Não mais como elementos materiais presentes no passado, onde eram parte do cotidiano. Mas como parte de um panteão simbólico. Exemplo: o Vinil e o K-7, desconhecidos da nova geração, adaptada com a Mídia MP3 e ao Spotify. Outro fenômeno é o “Vintage”, uma espécie de romantização de um período anterior, que se materializa nas barbearias, — onde cortes navalhados e o topete Pompadour retornaram à moda… e a barba também! — e também nas lanchonetes, — que, por sua vez, remontam a um diner americano dos anos 50.

Enquanto agentes em um determinado tempo histórico, todos possuímos um passado que é ao mesmo tempo particular e comum, que é sincrônico e diacrônico. Volta e meia, nos vemos apartados de nosso passado, de nossas raízes, por circunstâncias que, muitas vezes, não somos capazes de controlar. No entanto, apesar de tantas andanças pelo mundo, no fundo, somos como o protagonista do conto de Chesterton³ que abandona sua vida à procura de seu verdadeiro lar e depois de tantas andanças, o encontra no mesmo lugar à beira do rio que vivera por tantos anos. Ou talvez, em pequenos fragmentos daquele lugar, que carregamos conosco como relíquias, sem nos separar jamais.

Desde que o progresso tornou-se “o inevitável guia da história”, temos rumado cada vez mais longe de nossas raízes; seguimos em frente, rumo ao tal progresso, mas nossos olhos, volta e meia voltam-se ao retrovisor e buscamos resgatar as alegrias de um tempo que não mais podemos trazer de volta. A indústria cultural, o marketing e a política, — por sua vez, frutos do mesmo progresso — , dominam nosso apego emocional ao criar e recriar demandas. E assim, nós, os nostálgicos, apesar não mais padecermos de uma patologia catalogada em antigos índices científicos, por certo, estamos viciados na “droga” da Nostalgia.

Notas:
[1] Obviamente, não acredito que somos formados apenas por nossas experiências, como um indivíduo atomizado no qual muitos liberais creem. Acredito que “somos nós mesmos e nossas circunstâncias”, como Ortega y Gasset diria. Carregamos nossa bagagem particular de lembranças e vivências, mas somos, também, influenciados pelo mundo que nos cerca, nossa sociedade e muitas de nossas memórias, nada mais são, do que influência desta mesma sociedade, que deseja relembrar o que os enaltece e esquecer o que os prejudica. Vide, por exemplo o caso da verdadeira guerra pela memória do genocídio Armênio, feito pelos turcos em 1914

[2] Os mercenários foram bastante comuns para a composição de exércitos durante a baixa idade média, estendendo-se por praticamente toda a idade moderna visto que no período os exércitos nacionais não existiam.

[3] G.K. Chesterton, Nostalgia de Hogar, Fábulas y Cuentos

Por: Rafael Schier Granado