A união íntima com Deus

Artigos/Opinião
Como já anunciado no início dessa série de artigos, a finalidade principal aqui é compartilhar com os leitores alguns pensamentos que me ajudam na vida espiritual. Tenha-se isso em mente no texto a seguir. Em alguns momentos, deixei em primeira pessoa, para que fique mais claro que não se trata de um discurso teológico, mas sim testemunhal.
O mistério da inabitação da Santíssima Trindade na alma humana, através da graça santificante, é uma das verdades mais importantes em nosso caminho de perfeição. E, por incrível que pareça, é pouco conhecido, menos ainda meditado, muito menos ainda vivenciado.
Foi Jesus mesmo quem afirmou, na última ceia, que a Trindade habitaria em nós: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14, 23). Além disso, naquela mesma ocasião, pediu ao Pai para que nós estejamos “neles” (na Trindade) e “eles” em nós: “(…) assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós (…). Eu neles e tu em mim (…) Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste (…)” (Jo 17, 21-24).
Por sua vez, São Paulo insiste na realidade da habitação trinitária, referindo-se ao nosso corpo como templo do Espírito Santo:  “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).
E como principal consequência disso, São Pedro proclama que somos elevados à ordem divina, por participação na natureza de Deus: “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude (…) a fim de tornar-vos por esse meio participantes da natureza divina” (2Pe 1, 3-4).
A teologia ensina que essa presença nos é dada com a graça santificante, recebida no Batismo e recuperada, caso seja necessário,  pela Confissão ou pela Unção dos Enfermos. À medida em que a semente da graça santificante cresce em nós, a Santíssima Trindade mais toma a alma em seu amor, em uma união transformante, sem absorvê-la. A graça santificante cresce principalmente por atos de Caridade (amor a Deus por ele mesmo, e amor ao próximo por causa de Deus), mas também por atos de Fé e de Esperança, de modo especial na digna recepção dos Sacramentos, com destaque para a Eucaristia.
Tudo isso leva alguns santos a dizerem que somos chamados a ser deuses por participação. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, afirma: “O unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses”. São João da Cruz, na mesma linha: “Os santos possuem, por participação, os mesmos bens que as pessoas divinas possuem por natureza. Por isso, são verdadeiramente deuses por participação, feitos à semelhança e consortes do próprio Deus”.
Essa verdade é conhecida desde sempre na vida mística. O belíssimo texto de Santo Agostinho, em suas confissões, no qual ele reconhece que Deus estava em seu interior, embora ainda não em união transformante, pela ausência da graça santificante, já indica um chamado constante de Deus para que a alma aceite essa união: “Tu estavas dentro de mim e eu fora…  Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo”.
Mas, talvez, o maior exemplo experimental desse mistério tenha sido vivido por Santa Elisabete  da Trindade (1880-1906), carmelita canonizada em 2016 pelo Papa Francisco. O mistério da habitação da Santíssima Trindade no mais íntimo de si mesma foi a grande realidade de sua vida interior. Ela dizia: “A Santíssima Trindade, eis nossa habitação, nosso estar em casa, a morada donde jamais devemos sair (…). Penso ter encontrado o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está em minha alma (. . .). No dia em que compreendi esta verdade, tudo se iluminou para mim”.
Enquanto muitos de nós buscam crescer nas virtudes através de exercícios complicados, ela preferia focar na vivência das já mencionadas virtudes teologais da Fé, da Esperança e, principalmente, da Caridade, que é o vínculo da perfeição e rainha de todas as virtudes. Ela chegava a dizer: “Meu único exercício consiste em entrar em mim mesma, e perder-me naqueles que estão  em mim”.
Todas essas considerações me ajudam muito na minha vida espiritual. E para eu haurir tais benefícios costumo considerar  a verdade de Deus em Si mesmo e em mim: Três Pessoas realmente distintas, que se relacionam entre Si, e se relacionam comigo. É uma relação dinâmica, como qualquer relação entre pessoas.
As Três Pessoas se relacionam entre si, dignando-Se a fazê-lo -grandioso dom!- dentro de cada alma humana de forma particular. O Pai eternamente gera o Filho com amor ardentíssimo; o Filho eternamente se lança com amor ardentíssimo para o seio do Pai; desse encontro de amor, desse abraço, desse beijo eterno, procede o Espírito Santo, Amor Ardentíssimo em Pessoa. E Deus se dignou habitar todo inteiro, com todas as suas relações, na alma daquele que vive na graça santificante. E, assim, relacionando-se também com essa alma, a introduz, de certo modo, na intimidade trinitária, divinizando-a, tornando-a “deus por participação” (realidade velada nessa vida, mas que brilhará na outra). E essa participação, dom gratuito de Deus, cresce à medida que a alma se disponha para a união, pelos atos de Fé, Esperança e, principalmente, Caridade.
Tudo isso, parece-me, se dá à semelhança de uma riquíssima família, que tem uma casa na praia, outra casa no campo, outra casa nas montanhas, gozando o amor entre si em cada uma dessas “moradas”, que é cada alma humana em que germina a graça santificante. E é possível afirmar que as Três pessoas experimentam um gozo distinto em amar-se em João, em Maria, em Pedro, em Felipe, em mim e em você (e não só “em”, mas também “com”). Se você não corresponder ao amor de Deus, se tratá-lo com frieza ou até se expulsá-lo da sua alma, estará negando a Deus o grande prazer de viver em você, que foi feito à imagem do Filho muito amado e que pode se assemelhar sempre mais a Ele pela Caridade, aumentando ainda mais o gozo de Deus por você. Não que possamos acrescentar nada à sua infinita beatitude, mas é verdade também que Ele nos quer tanto como se precisasse de nós, como se fôssemos o deus dele (expressão usada por Santo Afonso Maria de Ligório, citando Santo Tomás de Aquino). A linguagem, aqui, se cala diante do mistério: “Quem sou eu, Senhor, para me amardes com tanto carinho?”
De tudo isso, eu colho alguns tesouros que muito me ajudam na vida espiritual. Cito três deles:
  1. A razão de ser da minha existência é viver para Deus, porque em mim Ele se compraz, quando vivo na graça, e Ele merece esse deleite. E isso em cada ato concreto e cotidiano. Acordar para Deus, me alimentar para Deus, me vestir para Deus, trabalhar para Deus, me divertir para Deus, sofrer para Deus, gozar para Deus e esperar a graça de morrer para Deus. Que alegria! Que satisfação! Como é bom saber que Deus se alegra com a minha companhia, enquanto eu guardo seus mandamentos!
  2. Para lograr esse “único necessário”, posso reduzir todo o programa da minha vida espiritual em uma coisa só: viver a Caridade, na certeza de que com ela crescerão todas as outras virtudes com as quais Maria, medianeira de todas as graças, quiser adornar minha alma para o encontro face a face com Deus (vide nosso artigo anterior). Praticar muitos, muitíssimos atos de amor a Deus, afetivos e efetivos. Antes de mais nada, afetivamente, em tudo repetindo: Senhor, faço isso, aceito aquilo, por amor a Vós. E deixar o coração seguir ao sabor dessas palavras pronunciadas pelo entendimento. Dizer sempre, dizer com carinho, dizer com aquilo que estiver no coração,  seja alegria ou tristeza, preocupação ou deleite. Especialmente na recepção da Eucaristia. E nos momentos em que o senhor quiser fortificar a Caridade e purificá-la da mera fantasia, será a hora de praticar o ato de Caridade efetivo: não fazer a minha vontade, mas a Dele, por mais difícil que seja,  porque Ele merece, porque Ele se agrada, porque é o jeito que Ele estabeleceu de se unir a nós.
  3. Meditar continuamente no amor que Deus nos manifestou em Cristo; no amor que Cristo tem pelo Pai; no amor de Deus por Maria, que é Filha, Mãe e Esposa das Três Pessoas divinas; no amor que Cristo tem pela Igreja; no amor que Deus infundiu nos esposos com o sacramento do Matrimônio… Ou seja, meditar em todas as nuances do amor divino. Não há dúvidas: nosso coração é matéria inflamável,  não consegue meditar sobre o amor sem também arder e tender à união. É por isso que o Senhor, ao dar o primeiro mandamento a Moisés (amar a Deus sobre todas as coisas), nos mandou que tivéssemos obsessão nisso, e que pensássemos o tempo todo nisso, andando na rua, deitados em casa, sem trégua, sem querer outro alimento senão este maravilhoso dom do céu: o Divino Amor!
Fomos feitos para um destino muito, muitíssimo grande. É o grande tesouro, que justifica abandonar inicialmente o afeto a todas as coisas e pessoas, para depois se surpreender por amar divinamente tudo e todos em Deus.
Esse também é o destino de muitas pessoas, que ainda não conhecem Jesus Cristo. Há tantos que não foram batizados ou que perderam a graça depois desse sacramento! E há muitíssimos também que não crescem nesse amor! Precisamos enlouquecer de amor por Deus a ponto de não ficarmos mais tranquilos enquanto não anunciarmos o Filho de Deus Encarnado a todas as pessoas. Que se acenda em nós o mais puro ardor missionário! Deus merece tudo!!!

Por: Danilo Badaró Mendonça