Bispos da Igreja Ortodoxa de Aleppo teriam sido martirizados em 2016, diz investigação jornalística

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Morreram como mártires, assassinados em dezembro de 2016 pelos milicianos que os mantinham reféns há anos. Esse teria sido o triste destino dos dois arcebispos de Aleppo, o greco-ortodoxo Boulos Yazigi e o sírio-ortodoxo Mar Gregorios Yohanna Ibrahim, desaparecidos em 22 de abril sem deixar rastro, na área entre a metrópole síria e a fronteira com a Turquia.

A versão é defendida por uma equipe de investigação liderada por Mansur Salib, pesquisador sírio residente nos Estados Unidos e divulgada por meio da plataforma digital medium.com, uma nova mídia social conectada ao Twitter.

Segundo os autores da investigação, os dois bispos teriam sido assassinados por militantes de Nour al-Din al-Zenki, grupo independente envolvido no conflito sírio, financiado e armado durante o conflito pela Arábia Saudita e pelos EUA.

A investigação repassa a história, concentrando-se em detalhes considerados úteis para reconstruir a dinâmica dos acontecimentos. Segundo os autores, em 22 de abril de 2013 os dois arcebispos haviam deixado Aleppo a bordo de uma caminhonete Toyota, dirigida pelo motorista Fatha ‘Allah Kabboud, com a intenção tratar da libertação de dois sacerdotes: o católico armênio Michael Kayyal e o greco-ortodoxo Maher Mahfouz, anteriormente sequestrados por grupos jihadistas anti-Assad, que na época controlavam os territórios a leste da metrópole síria.

Segundo a reconstrução dos fatos, Mar Gregorios e Boulos Yazigi, vestidos com roupas civis, teriam caído em uma verdadeira armadilha. Os dois padres Kayyal e Mahfouz – sustentam os investigadores – teriam sido sequestrados precisamente para serem usados ​​como “iscas” e possibiliar assim o sequestro dos dois arcebispos.

O carro no qual os dois metropolitas de Aleppo estavam viajando foi interceptado pelo grupo de sequestradores, e o motorista Fatha ‘Allah Kabboud, católico de rito latino, pai de três filhos, foi assassinado com tiros na cabeça. O sequestro nunca foi reivindicado por nenhum grupo.

Nos meses e anos seguintes, circularam em várias ocasiões boatos e anúncios sobre uma possível libertação,  o que sempre se mostrou infundado.

A investigação agora publicada no medium.com sugere o envolvimento no sequestro de personagens vinculados ao MIT (serviço de inteligência turco), alegando que o sequestro e a detenção ocorreram em áreas que na época se tornaram um “receptáculo para serviços secretos estrangeiros”, onde eles dificilmente poderiam ter operado sem o apoio de “terroristas comuns”.

A história do desaparecimento dos dois metropolitas foi marcada por despistes e informações falsas e enganosas, como aquela que alguns dias após o sequestro os dava como livres, e que se dirigiam para a Catedral ortodoxa síria de Aleppo, onde em vão se reuniu uma multidão de cristãos para esperá-los.

A reconstrução traz informações já conhecidas, além de suposições expostas sem confirmações objetivas, incluindo a de que George Sabra, um líder cristão que sempre esteve perto de grupos de oposição ao governo de Damasco, também estaria envolvido no sequestro dos dois metropolitas. Também foi ventilada a hipótese de que os autores do sequestro visavam forçar os dois metropolitanos a se converter ao Islã, para alimentar medo e desconforto entre as comunidades cristãs locais.

A testemunha mais relevante dentre as mencionadas no relatório parece ser Yassir Muhdi, apresentado como um dos carcereiros dos dois bispos, que mais tarde foi capturado pelas forças sírias.

“A investigação oficial” – reconhece o dossiê – “ainda não está concluída, porque não foi possível encontrar os restos mortais dos dois eclesiásticos”.

Entre outras coisas, a reconstrução alega – apresentando indícios verbais ou agregando informações sem evidências objetivas – que os dois arcebispos teriam sido torturados e que um deles, em 2015, teria sido tratado em uma unidade de saúde de Antioquia, a Antakya Devlet Hastanesi, na Província turca de Hatay.

Na seção final, a investigação sustenta que os dois bispos teriam sido mortos e enterrados em um local não especificado em dezembro de 2016, enquanto as áreas a leste de Aleppo estavam prestes a serem reconquistadas pelo exército sírio.

Por fim, a pesquisa publicada no medium.com pode ser útil para esclarecer detalhes sobre a dinâmica do sequestro e os estágios iniciais do sequestro dos dois metropolitanos, mas em muitas passagens não parece fornecer certos elementos úteis para esclarecer definitivamente qual foi a sorte de Boulos Yazigi e Mar Gregorios Yohanna Ibrahim, arcebispos da cidade martirizada de Aleppo.

(GV – Agência Fides)