Cardeal Pell: A missão da Igreja não é uma justificativa para a corrupção

Igreja

O Cardeal George Pell, prefeito emérito da Secretaria de Economia do Vaticano, garantiu que a missão da Igreja não é uma justificativa para a ineficiência financeira nem para a corrupção; e destacou que esta última pode gerar mais riscos para o clero do que as más condutas sexuais.

“Sem dúvida, o dinheiro é um dos dons de Deus que também é uma fonte de tentação”, disse o Purpurado australiano em uma mensagem de vídeo enviada nesta terça-feira, 30 de junho, ao Instituto Global de Administração da Igreja na Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma.

“Dizer que a Igreja não é um negócio não nos proporciona justificativa alguma para ser ineficazes e muito menos para ser corruptos”, acrescentou.

O Cardeal Pell foi nomeado pelo Papa Francisco em 2014 como prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, e esteve encarregado de monitorar e reformar as finanças vaticanas.

“Lembro-me de ter ficado surpreso quando soube, pouco depois de chegar a Roma [em 2014], que a Madre Teresa, Santa Teresa de Calcutá, disse que para o clero há dois grandes desafios: um que toca a sexualidade e outro que se trata do dinheiro”, disse o Purpurado australiano.

“E ela dizia que o perigo do dinheiro era maior e mais forte do que o da sexualidade errante”.

“Inclusive nosso Senhor teve muito a dizer sobre as riquezas, foi muito claro nesse aspecto. Recordo-me de uma vez que fiquei intrigado, há quase uma década, quando li que o Senhor condenou mais o amor pelas riquezas do que condenou a hipocrisia”.

O Cardeal também disse que “é saudável lembrar que o único grupo com o qual nosso Senhor usou o chicote foi com os cambistas, os comerciantes no templo”.

“O dinheiro é algo contaminado. Certamente gostei do meu trabalho com o dinheiro – é bastante fascinante – mas isso precisa ser controlado e administrado”, afirmou o Cardeal.

O Purpurado enfatizou então que “a Igreja não é um negócio. A Igreja é sobrenatural, mas temos que crer na encarnação, em que Deus enviou seu único Filho para que venha e viva conosco. Então, levamos a presença de Cristo e de Deus para nossas comunidades e precisamos usar o dinheiro e a metodologia para fazer isso”.

“Não estou sugerindo, nem por um minuto, que nossas prioridades devam ser invertidas”, afirmou.

“Lembro-me de falar em uma grande convenção de jovens e disse que era mais difícil converter uma pessoa a Cristo do que reformar as finanças do Vaticano”, continuou o Cardeal, que lembrou que “toda a imprensa secular afirmou que eu disse o contrário”.

Depois de elogiar o trabalho do instituto romano ao qual se dirigiu em sua mensagem em vídeo, o Cardeal Pell incentivou a viver a disciplina e a virtude.

“Uma coisa é ter uma visão espiritual e outra é ter um plano ou projeto. Obviamente, para implementar essas coisas, precisa-se de uma capacidade administrativa, uma capacidade humana que deve ser treinada e formada para o bem e para propósitos divinos”, afirmou.

Oficialmente, o Cardeal Pell deixou de ser prefeito de economia em 2019, mas deixou o cargo em Roma em 2017 para poder viajar para a Austrália e enfrentar as acusações de abuso sexual contra ele em seu país.

Depois de uma prolongada batalha judicial, na qual o Cardeal esteve na prisão e na solitária por pouco mais de um ano, foi absolvido de todas as acusações pelo Supremo Tribunal da Austrália em abril de 2020.

O Cardeal Pell deu alguns exemplos de sua estadia na prisão para incentivar a disciplina física junto com a espiritual.

“Na prisão, eu tinha muito tempo para rezar todos os dias e fazia isso. Eu fiz isso porque era meu dever, era coerente e foi muito útil para mim pessoalmente. Junto com isso, estabeleci vários passos práticos”, relatou.

“Minha vida era muito regular: acordava às 7h15 d e não voltava a deitar, mas ficava acordado. Fiz alguns exercícios todos os dias e vigiava a minha dieta. Acho que saí mais saudável em comparação a quando entrei na prisão”.

“Toda essa ordem e esses passos sistemáticos me ajudaram”, enfatizou o Cardeal Pell.

“Da mesma forma”, concluiu, “quando vemos as empresas da Igreja, a maneira como servimos às pessoas, não basta rezar regularmente, para sermos pessoas fervorosas. Temos que ser capazes de colocar nossa visão em ação”.

Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Nathália Queiroz.