Dom Azcona analisa primeira parte do documento final do Sínodo da Amazônia

Igreja

O Bispo Emérito do Marajó (PA), Dom Jose Luis Azcona, analisou a primeira parte do Documento Final do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica, que aconteceu de 6 a 27 de outubro, no Vaticano, com o tema “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

“Depois da celebração do Sínodo, a necessidade de uma reflexão profunda sobre ele e os acontecimentos em torno convida a uma atitude crítica, serena e audaciosa para uma compreensão mais nítida dele e para a efetivação concreta de espaços de liberdade eclesial e humana na busca dos ‘novos caminhos para a Amazônia e uma ecologia integral’”, indica o Prelado.

A seguir, confira a íntegra do artigo de Dom Azcona:

SÍNODO

INTRODUÇÃO

A necessidade diante do Documento final do Sínodo de avivar o nosso sentido crítico leva consigo a abertura para a liberdade eclesial e humana na busca dos “novos caminhos para a Amazônia”.

Tendo como alvo a construção da liberdade dos filhos de Deus na Amazônia e desde a Amazônia, elaboramos desde a fé cristã certas reflexões para a iluminação de algumas temáticas da Amazônia atual e do seu futuro.

O Documento final do Sínodo se despojou de não poucos erros, ambiguidades e dissonâncias eclesiais e nasceu com um rosto mais atraente do que se esperava do fraco, polêmico e pouco elaborado instrumento de trabalho (IL).

Iniciamos com uma análise sobre o capítulo 1º do Documento final, fundamental para a compreensão e implementação de todo o Sínodo: ‘Da escuta à conversão integral’.

Palavras no Documento como escuta, vida, voz, canção, clamor da terra, clamor dos pobres, entendidas como portadoras em si mesmas de conversão integral e salvação, assumem no texto uma importância salvífica transcendental que de modo nenhum lhes correspondem.  Por exemplo: “Ouvir a Amazônia leva-nos a uma profunda conversão dos nossos esquemas e estruturas a Cristo e ao evangelho” (nº 5). Na verdade, o “ouvir” da Amazônia é um elemento que contextualiza e efetiva a “profunda conversão a Cristo e ao evangelho”. Esta não depende da voz da Amazônia, do ouvir a Amazônia. Ela não gera a conversão pela fé que é originada exclusivamente pela Palavra da salvação. A escuta da Amazônia, da sua voz, do seu canto, da sua vida é elemento coadjuvante e contextualizado da eficácia da pregação do evangelho de Cristo como único Senhor e Salvador. A fé que salva (conversão) vem pela pregação e a pregação pela “palavra de Cristo” (Rom 10, 17). Na palavra da fé, fala e age Cristo mesmo (U. Wilckens; Schlier… Comentário à carta aos Romanos).

Não é pela voz, a canção da Amazônia ou pelos gritos da mesma e da criação que se gera a conversão que leva a salvação integral. É pela palavra das testemunhas de Jesus que acontece de modo salvífico e que é destinada a todas as nações (At 1, 8), o que equivale à “proclamação em seu Nome do arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações” (Lc 24, 47).

Evidentemente que isto supõe que essas testemunhas “sejam revestidas da força do Alto”, assim como o envio por parte de Jesus “do que o meu Pai prometeu” (Lc 24, 47-49). Isto é, o apelo, o imperativo, o convite à conversão integral expressa a necessidade absoluta de um “Novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; assim esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria, nossa esperança” (Aparecida 362. 548-549). E é deste Novo Pentecostes que no documento não se fala uma palavra.

Não são única nem principalmente tampouco, além da voz da Amazônia, o clamor da terra ou o clamor dos pobres que devem ser proclamados na Amazônia para a conversão integral. É necessária “como base, centro e ápice do dinamismo da evangelização na Amazônia (novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral), “uma proclamação clara de que em Jesus Cristo Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação (arrependimento-conversão) é oferecida a todos os homens como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus” (Ef 2, 8; Rom 1, 16) (EN 27).

Em uma palavra, para não fazer inútil o Sínodo, para não esterilizar a vida e a vida em abundância na Amazônia ou para que não cesse o cântico na mesma, para que o clamor da terra e seus gemidos junto com o clamor ensurdecedor dos pobres nela não seja silenciado, a Igreja  precisa não pregar outra coisa “se não a Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado” (1Cor 2, 2). Isto significa que se trata de uma Igreja que conscientemente e de modo refletido seja “estúpida e escandalosa”, (1Cor 1-2) segundo a sabedoria deste mundo e, portanto, também da sabedoria das culturas indígenas, afro-amazônicas e caboclas não evangelizadas.

Uma Amazônia onde se pregue com desassombro a estupidez de Deus, a loucura de Jesus Crucificado e o Espírito e poder que arrancam da Cruz, realidades estas desconhecidas por completo pelo Documento do Sínodo. Enfim, uma Amazônia que abandonando de uma vez “a sabedoria da linguagem” (1Cor 1, 17) como eixo cultural central, ou seja, as especulações do pensamento e as teorias sobre culturas amazônicas, interculturalidade, territórios, gritos e clamores, assuma como núcleo central o anuncio do evangelho (Ibid), isto é, a Cristo Crucificado, escândalo e loucura (23) para os que se perdem, mas para nós “os chamados”, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (24).

Assim, unicamente, deste modo repitamo-lo com ênfase e sem cansarmos que a missão acontecerá na Amazônia e a Cruz de Cristo não ficará esvaziada, inutilizada, esterilizada e anulada (V 17; 2, 1-5)! “Ouvir a Amazônia” (5) na multiforme e misteriosa voz da mesma não nos leva, portanto, a uma “profunda conversão”. É esta quem assumirá no espírito dos discípulos e à luz da palavra de Deus nossos esquemas e estruturas para levá-los a Cristo e ao evangelho (Ibid), ou seja, o arrependimento, o nascimento do homem novo e o dom do Espírito Santo (At 2, 38), assim como também “a escuta da Amazônia”, do seu canto, o clamor da sua terra e dos seus pobres. No Novo Testamento não existe nunca imperativo sem indicativo. Nunca compromisso moral sem eleição e vocação, sem experiência prévia do amor. E tampouco estrutura sem Espírito, nem missão sem Pentecostes.

Os efeitos deste erro fundamental do Sínodo estão aí: pelagianismo pesado, moralismo asfixiante, império das estruturas (Cap. V), secularismo onipresente (sem Cristo Crucificado), indigenismo e colonialismo indigenista onipresente, excludente, anacrônico.

I

De modo insólito e estranho para a tradição metodológica da pastoral latino-americana, do ver, salta-se para o agir, sem mediação suficiente  através da Palavra de Deus iluminadora, com capacidade objetiva de discernimento evangélico e pastoral, lançando assim de modo temerário ao Sínodo para um agir não penetrado suficientemente pelo “pensamento de Cristo”, que é unicamente a “sabedoria da Cruz” (1Cor 2,16). Desde o tema básico da conversão, organiza-se todo o conteúdo do Documento sem uma base fundamentada nem teológica, nem pastoralmente. Os últimos parágrafos deste capítulo insistem nesta mesma perspectiva. “Do clamor da terra, do clamor dos pobres e do povo da Amazônia a uma verdadeira conversão integral” (nº 17). Não é destes clamores amazônicos, mas do kerigma da salvação (Mc 1,15) ou da trombeta do julgamento (Joel 2; Os 6) da salvação ou da condenação, clamor proclamado por Jesus na palavra da pregação, que acontece a conversão. Unicamente através de uma evangelização que coloca a Redenção no centro, nascida de um amor crucificado se é capaz de purificar as estruturas de uma Amazônia violenta, ouvir e responder aos clamores da terra e dos pobres da mesma (AP 543), único eixo cultural portanto capaz de suscitar “uma espiritualidade mística”, como a de São Francisco exclusivamente identificável pelas chagas de Cristo nele, e a única capaz de descobrir e aprofundar nos gemidos do Espírito e no compromisso de “cuidar da casa comum” (Sínodo 17)

A citação de LS 12 não evita o risco que ameaça todo o Documento do Sínodo ao citar São Francisco e ao fazer a leitura esplêndida que ele realiza do mesmo livro da criação citando os textos de Sabedoria 13-15, Rom 1,20 sobre o conhecimento de Deus a partir da criação. Nesta citação, não se leva em consideração que, “tendo conhecido a Deus (pela criação), não o honraram como a Deus nem lhe deram graças” (V 21); o que se aplica não somente aos pagãos, gregos e romanos, mas também pela mesma razão, aos pagãos indígenas. Assim, “seu coração ficou nas trevas, tornando-se tolos e trocaram a glória de Deus…” por ídolos (V 21 a 23). Apareceu, portanto, a idolatria e com ela todos os males (V 28 a 32). Pela mesma razão, este acontecimento nefasto se adverte com evidência também nas culturas e nas religiões indígenas. Em uma palavra: “adoraram e serviram a criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém!” (V 25).

É isso mesmo o que se pode observar no Documento final: o endeusamento das culturas indígenas, não aparecendo estas sujeitas de modo algum ao pecado, com uma relação, portanto, quebrada com Deus, não precisando assim de modo nenhum da libertação do pecado nem do maligno. Essas culturas logicamente não têm nada a ver com a vida, morte e ressureição de Cristo. Por outra parte, elementos insubstituíveis da evangelização como: pecado, libertação, maligno, conhecimento de Deus, alegria de conhecê-lo, ficam substituídos de fato pelas possibilidades humanas, esforços voluntaristas e pelas culturas e religiões indígenas (Cfr EN 15; 22; 27; 32, passim).

Da mesma forma, poderíamos indicar no texto outro tipo de idolatrias, obra das mãos e inteligência humanas por detrás das quais sempre tem um demônio (Puebla).

II

No mesmo erro incorre o número 18 do Documento final, apoiando todo o seu peso e consistência nos conteúdos do número 217 da LS sobre conversão ecológica, integral, abrangente… Trata-se aí de novo mais das consequências do encontro pessoal com Cristo do que da própria conversão pessoal, deslocando novamente para o “fazer” o que é próprio do “ser”, isto é, o que corresponde ao homem novo pela conversão. De novo, os lobos do pragmatismo pastoral, das estruturas, do relacionamento com a criação e com o mundo, do moralismo e da ética não cristianizada, elimina de fato o indicativo que consiste na alegria de “conhecer a Deus e ser por ele conhecido” (EN 9) para poder conhecer a criação e se comprometer com ela e com a história. Em uma palavra, a onipresença da exigência ética da lei como estrutura asfixiante apresenta uma contradição completa com a nova criação, a nova criatura em Cristo, com um universo chamado para a liberdade.

Insistamos no conceito de conversão ecológica a partir da LS. A crise ecológica segundo a Encíclica é um apelo a uma profunda conversão interior (LS 217). Não podemos falar absolutamente de ecologia integral, portanto, do Sínodo da Amazônia se não perfilamos satisfatoriamente o conteúdo próprio da conversão ecológica.

Esta supõe uma profunda conversão interior como postulado fundamental, porque dela depende estritamente a eliminação dos “desertos exteriores tão extensos e em ritmo acelerado de desertificação devido a que os desertos interiores se tornaram tão amplos” (Cf. Ibid; Bento XVI , Homilia de 24.4.205). É no encontro transformador com Cristo que acontece essa necessária e prévia conversão interior, porque “desta fluirá, se for autêntica, a conversão ecológica que deixa emergir nas relações com o mundo que nos rodeia todas as consequências da criação do homem novo” (Ef 2, 14-15) em Cristo, que o faz entrar necessariamente no âmbito da “nova criação” (Cf. 2Cor 5, 17).

Papa Bento XVI nos lembrava de que “a criação resulta comprometida ‘onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para nós mesmos’” (LS 6; Bento XVI Discurso de 6/8/2008). Tragédia esta que unicamente se pode evitar pela experiência criadora do arrependimento, do novo nascimento no nome de Jesus e no dom do Espírito Santo (At 1,8; Lc 24, 44-48).

Com contundência e precisão, “o Patriarca Bartolomeu chamou a atenção para as raízes éticas e espirituais dos problemas ambientais que nos convidam a encontrar soluções não só na técnica, mas também na mudança do ser humano. Caso contrário, estaríamos apenas a enfrentar os sintomas” (LS 9).

III

Sem este ponto de partida é impossível compreender o Sínodo, fazendo deste evento eclesial um acontecimento perfeitamente inútil. Oportunamente, o Sínodo fundamenta a “conversão ecológica” lembrando-nos da necessidade de empenharmo-nos em coisas grandes, como é a ecologia integral, mas não apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem “uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (LS 216; EG 264). Insistamos na conversão interior da Igreja aqui preconizada como paradigma único para o saudável e robusto princípio e imperativo de transformação eclesial e de efetivação da ecologia integral.

Papa Francisco nos ajuda a compreender essa conversão ecológica quando descreve essa mística como “amor contagiante até o fim. Mas sei – continua ele – que nenhuma motivação será suficiente se não arde nos corações o fogo do Espírito. Em suma, uma evangelização com espírito é uma evangelização com o Espírito Santo” (EG 261). A conversão ecológica, portanto, inclui constitutivamente a necessidade de ser efetivada como “ecologia integral”, sobretudo com uma vida transformada pela presença de Deus (Ibid 259), a experiência de sermos salvos por Ele (264-267). Porque, como o Papa Francisco proclamou durante o Sínodo, “sem Pentecostes não tem Sínodo”

IV

Depois da celebração do Sínodo, a necessidade de uma reflexão profunda sobre ele e os acontecimentos em torno convida a uma atitude crítica, serena e audaciosa para uma compreensão mais nítida dele e para a efetivação concreta de espaços de liberdade eclesial e humana na busca dos “novos caminhos para a Amazônia e uma ecologia integral”. No final destas reflexões sobre o capítulo primeiro do Documento final do Sínodo, assistimos a uma apresentação equivocada da evangelização, ou seja, a primazia cronológica e geradora da realidade social e cultural como uma magnitude preponderante e dominadora sobre o próprio kerigma e as consequências sociais do mesmo. O secularismo difuso, a mania voluntarista, a autorreferencialidade estéril do texto danifica os conteúdos básicos da evangelização na Amazônia.

Em resumo, ouvir a Amazônia não nos leva a nenhuma profunda conversão. Aquele “ouvir” é uma realidade acompanhante e consecutiva a verdadeira evangelização. Aquele não cria se esse nada não é assumido pelo espírito de Deus que tira do nada para criar o novo, também os “novos caminhos para a Amazônia”.

Soure, 7 de dezembro de 2019
Dom Jose Luis Azcona
Bispo Emérito do Marajó

ACI