É Cristo que habita em mim

Artigos/Opinião
Na publicação passada, falamos sobre o mistério da inabitação da Santíssima Trindade na alma humana, quando em graça santificante, segundo a promessa do Senhor.
Cumpre destacar que uma das Pessoas que fazem morada em nós é o Senhor Jesus ressuscitado, filho de Santa Maria. Portanto, não se trata apenas da santíssima pessoa do Filho, mas também da sacratíssima humanidade de Cristo, habitando em nós de maneira real. Afinal, a união hipostática é uma aliança eterna, e onde está o Filho, está sua humanidade gloriosa.
Por sua vez, o Espírito Santo une Cristo com o fiel de tal modo que não são mais dois, mas uma só carne. Distintos, mas não separados; unidos, mas não confundidos.
Assim lembra o Papa São Leão Magno, ao dizer que “recebido pelo Cristo e ao Cristo recebendo, o homem não é o mesmo antes e depois do batismo, mas o corpo do regenerado se faz carne do crucificado” (Serm. LXIII).
Eis o grande mistério do amor entre Cristo e a alma, que se completa na união entre Cristo e a Igreja, da qual o matrimônio cristão entre o homem e a mulher, pelo qual os dois são uma só carne, é um sinal sagrado.
Esse grande mistério foi belamente expresso por São João da Cruz através do  poema sobre a Criação, no seguinte diálogo entre o Pai e o Filho:
Uma esposa que te ame,
meu Filho, dar-te queria,
que por teu valor mereça
estar em nossa companhia,
e comer pão numa mesa
do mesmo que eu comia,
para que conheça os bens
que em tal Filho eu possuía.
E se congrace comigo
por tua graça e louçania.
– Muito te agradeço, Pai,
– o Filho lhe respondia –
À esposa que me deres,
minha claridade eu daria,
para que por ela veja
quanto meu Pai valia,
e como o ser que possuo
do seu ser o recebia.
A encostarei ao meu braço,
e em teu amor se abrasaria,
e com eterno deleite
tua bondade exaltaria.
Veja a grandeza, veja a beleza da vocação cristã! Em razão da união instaurada pelo Batismo e sempre mais aumentada pela Caridade, Cristo assume nossa vida como “uma humanidade de acréscimo” (Santa Elisabete da Trindade). Ele prolonga, por assim dizer, o mistério da encarnação e da redenção em Seus membros, que completam em si mesmos o que falta à Sua paixão (Col 1, 24).
Nós, que fomos predestinados a sermos conformes à imagem do Filho (Rm 8, 29); nós, que pela graça nos tornamos esplendor de Deus (1Cor 11, 7); nós, transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandescente, pela ação do Espírito (2Cor 3, 18); nós nos tornamos um só com Cristo, outros cristos, numa comunhão total de bens divinos com Ele. “Deuses por participação”, como nos assegura o mesmo São João da Cruz.
O desejo dominante do Filho de Deus Encarnado, que vive em nós, é sempre o mesmo: entregar tudo ao Pai, glorificar o Pai, amar o Pai, deixar o Pai satisfeito, transbordar de gozo por ver o Pai feliz. Não é à toa que, na oração que Ele nos ensinou, o primeiríssimo pedido é que o Nome do Pai seja santificado. Esse é o objetivo final de Cristo, dar tudo ao Pai, como expresso por São Paulo: “E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem Àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15, 28).
Essas maravilhosas verdades de nossa fé devem se tornar fecundas em nossa vida. Algumas sugestões:
1. Medite sempre nestas verdades. Cristo está em você. Ele anda contigo, reza contigo, se alimenta contigo, sofre contigo, se alegra contigo, ama contigo. Mas se você não estiver contigo, vivendo fora de casa no turbilhão das atividades diárias, Cristo ficará sozinho… Sem meditação, a vida cristã não avança. Use livros, videos, podcasts, todos os meios à sua disposição para meditar nas verdades da fé. Se necessário, use sua imaginação para visualizar sensivelmente essa realidade de todo espiritual.
2. Considere, também, que tudo o que acontece já estava preparado por Deus desde antes de criar o mundo. Se até os fios da nossa cabeça estão contados (Mt 10, 30), também precisamos ter a plena certeza de que cada pormenor do nosso dia-a-dia foi preparado por Deus para nos unir a Ele, pela Caridade. Como diz São Paulo: fomos criados “para as boas obras, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos” (Ef 2, 10). Boa obra é atuar a Caridade em cada coisa, fazendo tudo para a glória de Deus: esse arroz com feijão que como no almoço, essa dor nas costas, esse deleite que sinto quando ouço um pássaro cantando, essa alegria íntima na oração, essa frustração por causa de uma contrariedade, essas distrações durante o Terço, esse sono que sinto à noite, esse trabalho que desempenho, essa palavra que troco com alguém, esse apostolado que faço, os bens que possuo, as relações que tenho com outras pessoas, os atos de pensamento, os atos de vontade, a vida e a morte, tudo, absolutamente tudo, foi preparado para que Cristo-em-mim-e-eu-nele (Jo 17, 21.23) ofereça toda a glória ao Pai, entregue tudo com seu amor ao Pai, elevando nossa vida junto com a sua humanidade sacratíssima em adoração, louvor, honra, alegria, prazer, satisfação.
Toda criança gosta muito de ver seu pai olhando agradado para ela! Alegria, segurança,  sossego, deleite, sob o olhar amoroso e satisfeito do Pai! É Cristo que habita em mim, é Cristo que pensa em mim, é Cristo que sente em mim, é Cristo que age em mim. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, damos toda honra e toda glória ao Pai, na unidade do Espírito Santo. Tudo isso dentro do templo da nossa alma, onde habita a Trindade.
3.Considere, ainda, que cada ocasião dessas é única e irrepetível. Se você a perder, será uma glória a menos que terá dado ao Pai, um prazer a menos ao Coração de Jesus, que já é tão ofendido. Como dizia Santa Terezinha do Menino Jesus: “Só tenho, para amar-Te, ó meu Deus, neste mundo, o momento presente!” Não perca os convites de união que Deus envia. São muitos, são tantos. Uma mega-sena por dia de tesouros celestes.
4.Considere, também, que cada ato de amor assim unido a Cristo rende uma maior participação na visão beatífica, um maior grau de proximidade com Deus para toda a eternidade, uma recompensa eterna. Que pena para você, quando perde uma oportunidade dessa. Que pena para Jesus, que verá Seu irmão menos belo na eternidade. Mas se pratica uma obra dessas com intenso amor, que alegria para você e para Jesus,  para Maria, para os santos e anjos, que participarão desse bem eterno na vida futura contemplando a beleza da virtude em você!
5. Essa união com Cristo se torna sempre mais perfeita pela Caridade, infundida em nós junto com a graça santificante. A pessoa deve dispor sua alma para que Deus aumente essa graça como Ele quiser. Os meios que o fiel tem ao seu alcance para melhor se dispor a essa graça são principalmente: recepção digna dos sacramentos e atos de amor a Deus. Prepare-se bem, com muito carinho, antes de receber os sacramentos. Depois de recebidos, prolongue-se na intimidade com o Redentor. Quanto aos atos de amor, estes podem ser afetivos e efetivos, como já explicado anteriormente.
6. Todo pecado cometido cria em nós desordens, más inclinações, fraquezas. São as chamadas “relíquias do pecado”, que permanecem mesmo depois do perdão da culpa. Elas não são de todo inúteis! Cristo também tem poder sobre elas, para orientá-las ao Pai. Sem cometer pecado, Cristo se faz pecado (2Cor 5, 21) e abraça essas desordens como se fossem dele, porque Ele nos abraça inteiramente. O amor transforma tudo em amor, nada lhe escapa.
Quanto a este último ponto, ponhamos um exemplo. Imagine que você se surpreenda com um pensamento de soberba. Diga ao Senhor: “Meu Jesus, Vós quisestes habitar em mim e caminhar comigo, dando-me uma vida totalmente nova, divina. Agora me peguei em um pensamento de orgulho, que renego, detesto. É muito desagradável conviver com uma pessoa arrogante, e Vós me suportais?! Ah, Senhor, não mereceis conviver comigo assim. Se quiserdes continuar a beber o fel da minha arrogância, meu Jesus, continuarei bebendo junto convosco, renegando e me entristecendo amargamente toda a vez que essas ideias surgirem. Completarei em minha alma o que falta à vossa Paixão, se me derdes essa honra de beber convosco o fel das minhas desordens. Mas se quiserdes que minha companhia vos seja mais agradável, Senhor, comunicai-me vossa humildade. Seja como quiserdes, para a glória do Pai”.
Nada escapa ao amor. Vivamos do amor, para o amor, e encontraremos a doçura de uma vida cheia da presença de Deus!
Por: Danilo Badaró Mendonça