Jihadistas mataram Pe. Ganni por se recusar a fechar sua igreja, afirma seu postulador

Igreja

O processo de reconhecimento do martírio e beatificação do sacerdote caldeu iraquiano, Pe. Ragheed Ganni, continua em andamento, segundo explicou o postulador de sua causa, Pe. Luis Escalante.

Em declarações a ACI Prensa, agência em espanhol do Grupo ACI, assinalou que o processo entrou em sua fase romana e explicou que, em 1º de outubro, fizeram o procedimento de abertura do túmulo, na localidade iraquiana de Karamles, para proceder com o reconhecimento dos restos mortais do sacerdote.

Segundo uma nota de imprensa emitida pela Eparquia de São Tomé Apóstolo de Detroit dos Caldeus, onde se reuniu toda a documentação, o corpo estava em bom estado e não foi profanado pelos terroristas do Estado Islâmico, que ocuparam a cidade por vários anos.

O assassinato de Pe. Ragheed ocorreu em 2007, próximo à paróquia do Espírito Santo de Mossul, no Iraque. O sacerdote havia acabado de celebrar a Missa e saía da igreja acompanhado pelos subdiáconos Wahid, Basman e Gasasn, quando terroristas pertencentes ao grupo Ansar al Sunna, mais tarde absorvidos pelo Estado Islâmico, abordaram-nos na rua e os assassinaram a tiros.

O evento ocorreu no contexto da invasão norte-americana do Iraque e do colapso do regime de Saddam Hussein.

Pe. Ragheed era um pároco jovem, havia se formado em Roma, onde se formou em ecumenismo, e retornou ao seu país para servir pastoralmente à sua comunidade. No Iraque, encontrou uma situação de islamização progressiva da sociedade e uma crescente intolerância em relação às minorias religiosas.

As ameaças contra ele e contra a comunidade cristã de Mossul eram constantes. Os atentados e ataques em pequena escala contra os cristãos começaram a aumentar. Portanto, “ele sabia que a situação era difícil. Havia ameaças e atentados contra a igreja dele”.

Os três subdiáconos também sabiam que sua vida estava em perigo. Tanto eles como Pe. Ragheed poderiam ter ido embora e se mudar para um lugar mais seguro, mas “sabem que precisam dar um testemunho cristão e ficam”. Em particular, “Pe. Ragheed poderia ter se ausentado, mas não quer deixar sua paróquia”.

Nesse dia, em 3 de junho de 2007, Pe. Ragheed, ao terminar a Missa, vai à sua casa com os subdiáconos em dois carros. Em dado momento, outro veículo interrompe a passagem, “obrigam-nos a descerem e um grupo de homens, quatro ou cinco encapuzados, perguntam-lhes porque mantinham a igreja aberta. Pe.Ragheed responde: ‘Eu não posso fechar as portas da casa de Deus’”.

Pe. Escalante sublinhou que os acontecimentos foram confirmados por numerosas testemunhas. “Terminamos de coletar todas as provas das testemunhas, temos uma testemunha principal, esposa de um dos subdiáconos, Wahid, refugiada na Austrália, e é a única testemunha ocular que acompanha e testemunha como eles são assassinados”.

Após a prisão, os terroristas matam Pe. Ragheed e os subdiáconos. Um deles “corre e o matam no meio da rua. O subdiácono Wahid tenta proteger sua esposa e disparam nele. Os dois caem e os terroristas supõem que a mulher também está morta, mas a mulher sobrevive”.

Os terroristas estão plenamente identificados, pois Pe. Ragheed tinha perguntado quem eram e os terroristas responderam: “Nós somos Ansar al Sunna”, um grupo anterior ao Estado Islâmico que depois integrou-se à sua estrutura.

Os mártires “morrem todos de bala. Temos as certidões de óbito, onde fica claro que foram mortos a tiros. Os corpos permanecem lá. A esposa de Wahid acorda depois de alguns minutos, ela realmente não sabe quanto tempo passou, banhada no sangue do marido, toda confusa. Um muçulmano, que fica com pena dela, a leva para a igreja com uma motocicleta e de lá informam as pessoas da comunidade que vão para o local”.

“Temos uma testemunha, que é o primeiro cristão a chegar, que explica que, quando chegou, os corpos ainda estavam lá, ninguém os assistia, porque ninguém queria tocar nos corpos. Com o passar das horas, decidiram levar os corpos para a paróquia. Limpam os corpos e depois chega a ambulância que os transfere para a autópsia.

No dia seguinte, realizaram o funeral e o enterro na igreja de Santo Addai, na aldeia cristã de Karemlash, que posteriormente seria conquistada e destruída pelo Estado Islâmico.

Estado atual do processo

O processo de reconhecimento do martírio foi complexo desde o início. A destruição do Estado iraquiano nos meses após a invasão dos EUA, a invasão do Estado Islâmico no norte do Iraque a partir do verão de 2014 e a proclamação do chamado califado, dificultaram a coleta de dados.

Além disso, os terroristas do Estado Islâmico procederam à destruição de numerosas documentações e inclusive locais de culto. Houve várias tentativas de profanar os túmulos de Pe. Ragheed e dos subdiáconos e, até a abertura do túmulo, desconhecia-se o estado do corpo do sacerdote caldeu.

Pe. Escalante explicou que, “visto que o Iraque é inseguro e que as dioceses não dispunham de meios para realizar a investigação, todos os bispos caldeus decidiram que o processo deveria ser realizado na cidade de Detroit, em uma Eparquia nos Estados Unidos”.

“Nos últimos anos, juntamos todos os materiais, declarações e, durante o mês de agosto, trabalhamos e concluímos com o Eparca de Detroit dos Caldeus. Trouxe o relatório para Roma e já foi entregue à Santa Sé. Desta maneira, agora está na fase romana”, assinalou.

“Durante a instrução, pudemos ter mais elementos, declarações das testemunhas, pais, parentes, temos muita documentação, muitas fotografias deles. São histórias muito simples de pessoas trabalhadoras, um dos subdiáconos estudava arte, outro gostava de mecânica. Mas os três subdiáconos têm a mesma reação interessantíssima”.

“Todos sabem que têm que ir nesse dia. Não sabiam que iam morrer. Mas, como dizem os textos martiriais, Deus os chamava inconscientemente para receber esta coroa do martírio, porque o mártir ama a vida. Eles, amando a vida, aceitam este testemunho final”.

Pe. Escalante explicou que chamou a atenção das primeiras testemunhas do martírio e dos investigadores posteriores o fato de que um dos subdiáconos, Gassan, estava “nesse dia vestido da melhor forma, com suas melhores roupas, e assim foi assassinado. Tanto que chamou a atenção de seus parentes porque havia se vestido assim. Simplesmente ia à Missa e essa foi sua última Missa”.

As instruções não são muito numerosas: “existem cerca de 760 páginas de documentos e testemunhos. Agora, a primeira coisa a ser feita é validar que tudo foi feito de maneira juridicamente correta. Depois disso, tenho que começar a preparar a positio, que é um livro com as partes essenciais da documentação e testemunhos, para provar o martírio”.

“Neste caso, o martírio é por ódio à fé. Está claro. Está claro não apenas por causa do conceito terrorista, mas porque existe uma intenção clara de exterminar os cristãos. De fato, tiveram bastante êxito, porque nessa mesma noite do assassinato, na noite do funeral, algumas famílias deixaram Mossul”.

“Mossul foi posteriormente ocupada pelo assim chamado califado, destruíram todas as igrejas, destruíram os cemitérios, inclusive onde os subdiáconos estão enterrados, fomos lá e está totalmente destruído. Felizmente, supomos que nos túmulos dos três diáconos, além das lápides quebradas, os corpos estão intactos”.

Por esse motivo, mostrou sua esperança de que “esses mártires, especialmente a figura de Pe. Ragheed, vá encarnando realmente como um testemunho sacerdotal estupendo. Já há muitas pessoas que rezam para ele, em muitas partes do mundo, como um sacerdote inteligente, comunicador, que ama a sua terra, que volta para sua terra e dá a vida por seus fiéis, que nunca tem medo. Um sacerdote jovem, que era muito simpático, que era muito querido e que sabia que sua missão é precisamente a fé em sua terra”.

Portanto, “já existe uma devoção ao Pe. Ragheed e aos três subdiáconos, mas sobretudo ao Pe. Ragheed. Os três subdiáconos são companheiros nesta situação de martírio”.

Próximas etapas do processo

Uma vez finalizada esta fase do processo de reconhecimento do martírio, abre-se uma nova na qual “é preciso elaborar toda a documentação para preparar duas coisas. Primeiro, a demonstração do martírio material, ou seja, que foram assassinados. E temos todas as provas da morte violenta”.

Em seguida, “é importante demonstrar o martírio subjetivo. Isto é, como assumem as ameaças, o perigo, o risco. Depois, é preciso demonstrar também que é o perseguidor. Neste caso, o grupo que está claramente identificado, e temos bibliografia muito boa. Consultamos na comissão histórica pessoas que conhecem muito bem estes grupos terroristas, os quais tiveram como objetivo a destruição dos cristãos e que os cristãos abandonassem seu lugar onde tinha vivido desde o século I, muito antes da chegada do islã”.

Situação atual no Iraque

A situação atual no Iraque, lamentou Pe. Escalante, “é muito difícil, porque, de um milhão e meio de cristãos que estimava-se que vivia no Iraque no final do século passado e início deste, provavelmente haverá hoje 300 mil ou menos, embora não haja cálculo seguro”.

“Todos esses ou morreram ou escaparam e se dispersaram por todos os lugares: Austrália, Síria…, muitos são refugiados na Jordânia, Turquia…, inclusive na Síria. Houve países muito generosos, Suécia, Alemanha, para onde puderam ir”.

Entretanto, “os líderes das Igrejas cristãs pedem o regresso. É uma decisão muito difícil, porque a situação após a libertação do Califado é que esses cristãos continuam psicológica-laboralmente atacados. De modo que eles tentam ajudar-se entre si, reconstruir as paróquias e criar uma rede cristão de ajuda”.

“Eles são encorajados pela fé, são encorajados por serem cidadãos iraquianos e por terem o direito de viver em seu país. O movimento contra o cristianismo é muito claro. Mas os bispos dão, e me deram, tantas vezes um testemunho de fé incrível. A mesma ausência de medo que vejo hoje no rosto de muitos, e a reconstrução da parte de Mossul, os arredores de Mossul, Qaraqosh e muitas outras cidades e vilas cristãs são um grande esforço. Há muitos que ajudam, mas o importante é que o terreno no Iraque não seja favorável no momento”.

ACI