Jim Jones: O norte-americano que era socialista, morou em BH e fundou uma seita suicida na Guiana

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A história de Jim Jones reúne elementos históricos, ideológicos e religiosos que enriquecem a tragédia que culminou com o maior suicídio coletivo da história.

Há precisos 40 anos, em 18 de novembro de 1978, 909 estadunidenses morreram no maior assassinato em massa do país. Pergunta-se se, se foi suicídio, por que falar em assassinato. A explicação está no fato de que as pessoas foram induzidas e/ou obrigadas ao ato. A crueldade de Jim Jones primeiro fez com que os pais assistissem os próprios filhos tomarem cianeto misturado com suco de uva, seguidas de idosos e, por fim, os adultos.

Jim Jones nasceu no estado de Indiana em maio de 1931 e desde muito jovem se interessou pelo Marxismo e era crítico do racismo. Em 1959 cria o Templo dos Povos: Igreja Cristã do Evangelho Pleno. Com sua esposa, adota crianças negras e orientais, a que chamava de Rainbow Family (família arco-íris).

Curiosamente, em 1962, leu um artigo na revista america Esquire que discorria sobre um possível apocalipse nuclear e relacionava seis cidades no mundo que estariam relativamente seguras. Uma delas era nada mesmo que Belo Horizonte, para onde o pastor evangélico se mudou e iniciou seu trabalho social em favelas. Posteriormente mudou-se para o Rio de Janeiro, onde obteve apoio de uma senhora rica, aqui não mencionada, que o ajudava em suas obras. Ele manteve relacionamento com esta mulher, a contragosto, apenas para manter seus objetivos e confessaria que detestava estar com ela. 

De volta aos Estados Unidos, retoma as atividades de sua congregação e, no início dos anos de 1970 conduz quase mil pessoas para a Guiana (hoje Guiana Inglesa). O pastor pregava que este país seria o paraíso na terra, o que é próprio do misticismo milenarista e das utopias. 

Jim Jones se gabava de ter conhecido Fidel Castro e era um árduo defensor do Socialismo, que, no final, não poderia mesmo acabar bem. Chegou mesmo a adotar um visual que remetia ao clássico avatar do socialista latino: a boina e os óculos escuros, como podemos ver em muitas fotos de Che Guevara.

A igreja de Jim Jones sobrevivia de doações de seus seguidores e de pessoas influentes e chegou a ficar milionário com os recursos obtidos, o que propiciou a compra do terreno na Guiana para a fundação de uma comunidade agrícola, onde todos seriam iguais, sem cor, sem ricos e pobres e todo o discurso comum nos países comunistas.

Durante este processo começavam as primeiras denúncias, ainda nos Estados Unidos, de pessoas insatisfeitas com a dura realidade da seita: ameaças, medo, extorsões e o início do que seria uma prática peculiar na futura comunidade rural, batizada de Jonestow, em homenagem ao próprio Jim Jones: o treinamento para suicídio. Esse treinamento era chamado de noites brancas. Nele, as pessoas eram coagidas a tomarem o veneno, sem saber que ali havia apenas suco.

Realizando seu sonho na “terra onde escorria leite e mel”, Jonestow  torna-se a síntese da loucura do gnosticismo dialético, onde convivem a alegria e o terror. Dos quase mil seguidores dos mais fervorosos, cegamente influenciados pelo hipnótico e paranóico líder, aos poucos misturam-se à euforia dos cultos, os crescentes casos de ameaças físicas, tortura psicológica, entrega de propriedades, interferência na vida sexual e familiar dos casais e afastamento das crianças em relação a seus pais. Jim Jones era mesmo um bom socialista… 

Para manter os ares de bom moço e de comunidade feliz, Jim Jones contava com o apoio do governo da Guiana, que considerava estratégica a posição da comunidade, próxima à fronteira com a Venezuela, o que inibiria qualquer tentativa do país vizinho para investir em um conflito armado, pois havia centenas de cidadãos norte-americanos no local. Além disso, Jim Jones contava com uma publicidade exterior paga com a extorsão de seus seguidores, além da doação que ainda recebia de crentes dos Estados Unidos.

A personalidade de Jim Jones a cada dia dava sinais de maior paranóia. Cria ele que estava sendo perseguido pelos inimigos de sua maravilhosa visão de mundo e que os capitalistas opressores queriam matá-lo. Ao mesmo tempo, a seita passou a contrabandear armas.

Aproximando-se o dia que o pastor Jim Jones se referia como suicídio revolucionário, a comunidade já mais parecia um Gulag, onde o temor de ser torturado imperava. Assim como no terror vermelho de Lênin e na Cuba de Fidel, as pessoas eram coagidas a denunciarem umas às outras por qualquer insubordinação a seu líder. 

De forma crescente, chegavam aos Estados Unidos rumores de algo errado acontecia em Jonestow, o que motivou a ida até o local do congressista Leo Ryan, o que apavorou Jim Jones. Foi organizado um culto onde as pessoas deveriam demonstrar enorme satisfação, outra prática comum entre facínoras comunistas. O congressista levou consigo uma comitiva que incluía jornalistas e membros de seu gabinete. No local, Leo Ryan foi recebido em meio a festa, mas, durante o evento, um membro da comunidade chegou perto dele e tentou colocar um bilhete em seu bolso. O bilhete caiu no chão, mas o congressista conseguiu pegá-lo e leu nele um pedido de socorro. Reuniu-se com Jim Jones que o ameaçou e foi agredido pelos seguranças do líder messiânico. 

Leo Ryan e todos que estavam com ele sentiram o risco de estarem no local e foram expulsos por Jim Jones, que iria cometer um erro fatal.

Tomado por um angustiante quadro de pânico, o pastor, que tomava tranqüilizantes, imaginou-se sendo caçado pelo governo dos Estados Unidos e que talvez fosse atacado por bombas disparadas de aviões assim como no Vietnã. 

Jim Jones ordena a seus comparsas que façam uma emboscada no aeroporto improvisado de onde partiria o avião do congressista. Deste acontecimento, alguns conseguiram escapar, mas cinco correm, incluindo Leo Ryan. 

Sabendo então que a morte do congressista era fim de linha para a sua comunidade Jim Jones realiza de imediato o culto do suicídio revolucionário, que “conduziria a todos a um lugar melhor”. 

O FBI encontrou após o assassinato em massa, um áudio de 45 minutos do culto, onde ouve-se muitas vezes o comando de Jim Jones, entre os quais afirma que “Nós não cometemos suicídio: cometemos um ato de suicídio revolucionário para protestar contra as condições de um mundo desumano”.

Após o suicídio de todos, Jim Jones se mata, não com a mistura de cianeto e suco, mas com um tiro na cabeça, findando assim o seu triste reinado como um deus falido no Templo dos Povos. 

Por: Gustavo Corrêa Gonçalves dos Santos