Luciano Takaki: O desafio de ser católico

Artigos/Opinião

Nos tempos atuais, com seus traços apocalípticos onde – infelizmente – vemos cada vez mais pessoas se comportando como bestas e cada vez menos pessoas se comportando como pessoas; está cada vez mais difícil também manter uma certa sanidade mental, visto que há muitas opções de entretenimento corruptoras e pouquíssimas opções edificantes. Não vejo outra razão para isso senão uma intenção clara de embrutecer as mentes das pessoas em especial dos mais jovens.

Não quero dizer aqui que os jovens em si estejam totalmente perdidos, mas que pela sua própria imaturidade mental acabam sendo os principais alvos dos servos de Satanás. E isso não é de hoje, pois basta ver o que vemos mesmo nas igrejas. Jovens imodestos, falando e pensando coisas erradas e, o pior de tudo, aprendendo coisas erradas. Mas os mesmos jovens que estão destruindo o mundo (como é de praxe, convenhamos) também são os que podem salvá-lo. Claro que esse “salvá-lo” é não só num sentido figurado como também de forma acidental, por quem salva é Cristo, mas nada impede que os mesmos jovens sejam instrumentos de salvação para muitos.

Chesterton disse que cada geração é convertida pelo santo que mais a contradiz, o que é verdade. As principais resistências a certos problemas tendem a se concentrar mais onde mais ocorrem esses problemas. Se os jovens mal instruídos e educados são grandes problemas, também se deduz que os bons jovens são as principais resistências. O maior problema seria como lidar com esses mesmos jovens. E não creio que seja lá muito difícil. Inclusive, eu particularmente tenho muitas amizades jovens e sei que boa parte delas deve estar se perguntando o que estou querendo dizer com isso. Vamos aos pontos.

O movimento mais tradicional do catolicismo hoje está crescendo razoavelmente tanto no Brasil como em partes do Ocidente. Creio que em muitos casos se deva à própria frouxidão do catolicismo pós-Concílio Vaticano II. Visivelmente, a maioria dos que estão neste movimento são jovens e, em geral, jovens gostam de desafios e ser católico é algo que sempre pareceu desafiador, e realmente tem sido, pois o Reino dos Céus é conquistado pelos violentos (Mt 11, 12). Creio que seja muito importante abordar esse tema porque não podemos compreender o efeito sem antes conhecer a causa. Muito do que vemos tem por causa o Vaticano II, apesar de existir também outros eventos que antecederam, mas aqui abordarei o que veio depois. Como não sou teólogo e nem canonista, não estou aqui para discorrer sobre o Concílio Vaticano II, do qual nunca fui nenhum entusiasta desde a minha conversão, nunca comentei muito sobre ele e não será hoje também. Mas, pelo pouco que li, não gostei. Enfim, posso dizer que nesse caso pareço ter um espírito jovem, apesar de ter quase quarenta anos, razão por que o Concílio Vaticano II parece a meu ver tornar o catolicismo pouco desafiador. E não gosto disso. É bem diferente do catolicismo ensinado pelo Catecismo Maior de São Pio X ou Catecismo Romano. Afinal, a salvação eterna é um prêmio infinito que mesmo com todo o rigor da época desse santo Papa, está muito barata perto do que temos que fazer. Tudo o que for cobrado é muito pouco perto do nosso prêmio. Mas o Concílio Vaticano II me pareceu tornar quase gratuito. Quando, por exemplo, lemos num dos documentos que «A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões [budismo e hinduísmo, nesse contexto em que reproduzo] existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens» (Nostra Aetate, 2).

Claro que não vou negar que todas as religiões têm algo de verdadeiro, mas isso não significa obviamente que elas têm princípio comum, como pretendem os perenialistas. Quem estudou ou estuda lógica sabe que para conhecermos o ente, ainda que seja o ente de razão, esse ente deve ser verdadeiro de alguma forma porque tal ente, enquanto inteligível, é sempre verdadeiro ainda que seja compreendida de forma errada. Com isso quero dizer que mesmo que você seja enganada mordendo uma maçã de plástico como se fosse verdadeira, aquela maçã de plástico, enquanto maçã de plástico, é um ente verdadeiro, mas é falso se se entender como maçã. Fazendo um jogo de argumentações, poderíamos dizer que todas as religiões são verdadeiras enquanto religiões. O problema é que ainda que pensemos dessa maneira, há de entender que as distinções existentes nas diferentes religiões impedem que todas agradem igualmente a Deus. Sendo assim, se Deus existe e revelou alguma religião, deverá ser essa a única religião que leva a união a Ele. Nesse sentido, só existe uma única religião verdadeira, a religião revelada por Deus que é a católica. Assim sendo, podemos ver que não é nem um pouco desafiador o pensamento de que todas as religiões levam à salvação.

Um santo como Inácio de Loyola seria uma inspiração interessante para os jovens católicos tradicionalistas de hoje. Foi justamente o pensamento de desafio que o tornou católico. Santo Inácio ao ler a vida dos santos (em especial São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis) quis ser como eles. Quis a glória deles. A vida dos santos é extremamente desafiadora. Uma coisa é ser mero católico de terço diário e missas dominicais. Outra coisa é ser um santo. Uma coisa é seguir os preceitos por meramente ser católico. Outra coisa é renunciar ao seu ego por amor a Deus. Ser santo é extremamente desafiador e Inácio de Loyola aceitou o desafio, lutou e foi bem sucedido. Como ele conseguiu? Com a ajuda da graça e uma vontade sobrenatural de ser católico. Isso não quer dizer absolutamente que ser católico nos períodos anteriores ao Concílio de Trento seja mais fácil que ser católico nos períodos posteriores ao Concílio Vaticano II. Em verdade, podemos dizer o seguinte: ser católico no período atual é muitíssimo mais desafiador e ser santo mais ainda. Hoje precisamos que católicos intransigentes para com o que ensina o Magistério em detrimento com o que ensina o mundo. Não precisamos de quem abre concessões ao mundo. Estes prestam desserviço.

Como católicos não devemos buscar facilidades, mas aceitar as dificuldades. Cristo nos ordenou a carregar a cruz e não deu a opção de não carregar e nem de escolher qual cruz devemos carregar. Mas Cristo carregou a cruz mais pesada por nós, a Cruz com o peso dos nossos pecados, pois Ele é a causa meritória da nossa salvação. A salvação não é fácil, nem difícil. É simplesmente impossível. Mas Cristo a tornou possível, mas não sem antes deixar uns desafios: o desafio de sermos fiéis a sua Igreja, o desafio de amar o próximo como a nós mesmos, o desafio de amar a Deus sobre todas as coisas, o desafio de renunciar a nós mesmos, o desafio de carregarmos a cruz que Ele escolher para nós mediante a sua Providência. Aceitamos o desafio. Aceitamos desde o momento em que fomos batizados. Assim vive o católico, e deve viver. Ainda que o Concílio Vaticano II queira, por sua concessão ao mundo moderno, fazer parecer que não. Mas ser católico é um desafio que aceitamos por amor.

POR: LUCIANO TAKAKI