Rafael Granado: Nossas tradições são contrarias ao hispanismo?

Artigos/Opinião

“O Nacionalismo não ama o que lhe é próprio senão ao que ainda não possui” — G.K. Chesterton [1]

I — Introdução e Razão do Texto:
Recentemente fui confrontado com um texto de uma página no Facebook afeita a defender “Tradições Medievais”. O escrito tratava sobre “hispanismo” e o fato de este não dizer respeito à tradição Brasileira, visto que se trata de um projeto de poder, por si só, contrário ao Ethos nacional. O texto a seguir é resultado de um debate acerca do texto supracitado e as conclusões citadas são tanto minhas como colaborações de um grande amigo.

Tirando todos os juízos de valor de seu autor, o texto pode ser resumido em uma tese central com quatro pontos centrais em sua argumentação, destaquemo-los:

II — A Tese: O “Hispanismo” não diz respeito à nossa cultura e tradições.

1- O “Hispanismo” é uma ideologia criada por amantes do extinto Império Espanhol e, trata-se, antes de tudo de um “projeto de Estado” e enquanto projeto de Estado, revela-se contrário ao Patriotismo Brasileiro;
2- A Base do pensamento hispanista está expresso em um ‘Ethos’ comum entre os países ibéricos e suas colônias, coisa que não existe, visto que cada país ao se constituir como nação constrói seu próprio ‘Ethos’;
3- Portugal e Espanha são inimigos históricos;
4- Os hispanistas costumam usar José Pedro Galvão de Sousa para justificar a anexação Portuguesa por Espanha;


Resposta ao Primeiro Argumento — ‘O “Hispanismo” é uma ideologia criada por amantes do extinto Império Espanhol e, trata-se, antes de tudo de um “projeto de Estado”…’

O termo ‘Hispânia’, que não se deve confundir com o Estado-Nação chamado Espanha, remonta à nomenclatura dada à Península durante o Império Romano. Na Idade Média esse termo continuou sendo usual, dizendo respeito a todos os reinos, desde os reinos islâmicos de Al-Andaluz e Granada, como também os reinos católicos de Castela, Aragão, Navarra e Leão, ao qual estava submetido o Condado Portucalense [Nota 1]. Ou seja, todo o território do que hoje chamamos “Península Ibérica”, que é um termo posterior. As guerras que constituíram Portugal enquanto reino independente, reforçadas pela Bula Papal supracitada, não excluem seu pertencimento às Hispânias, visto que era comum aos reis portugueses declararem-se Reis de Portugal e das Hispânias, assim como o Papa João XXI, nascido em Portugal, era conhecido como “Papa Hispano” ou Petrus Hispanus Portucalensis.

Em primeiro lugar, a fim de ajustar os termos do debate, vamos corrigir o termo “Hispanismo” para Hispanidade, visto que se trata de uma noção de pertencimento. A Hispanidade parte das premissas de uma origem e finalidade comuns entre os povos pertencentes à península, aquilo que chamamos Ethos, uma origem visigótica, católica, das Astúrias, das ordens de cavaleiros da reconquista (que tinham por objetivo retomar a velha Hispânia e não os Estados-Nação Espanha e Portugal, coisa que nem existia nesse período) e cuja natureza expansiva se expressa nas navegações. Trata-se de uma questão de pertencimento, de identidade e um traço psicológico comum. Logo, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que a hispanidade é uma aliança cultural e apolítica. Que remonta a períodos muito anteriores a unificação dos reinos espanhóis, com Isabel Católica e Fernando de Aragão e da implantação dos Estados Modernos e dos Nacionalismos tanto em Espanha, quanto em Portugal.

Vale um adendo: o projeto político saudosista da União Ibérica e que deseja a unificação da Península, não se chama “Hispanismo”, mas Iberismo. Tratando-se antes de um projeto nacionalista e, portanto, moderno. Ao passo que a hispanidade é tradicional e de raízes orgânicas. [Nota 2]


Resposta ao Segundo Argumento — “A Base do pensamento hispanista está expresso em um ‘Ethos’ comum entre os países ibéricos e suas colônias, coisa que não existe, visto que cada país ao se constituir como nação constrói seu próprio ‘Ethos”

Aqui podemos usar um argumento simples: um fator circunstancial como a independência de um país — apesar de ser um fator de extrema importância para a constituição de uma nova forma de governo, das leis e de um povo tomando as rédeas do destino de um território — , não é capaz de apagar sua origem, os laços construídos e a sua tradição.

Esse argumento pode ser usado pra justificar que não precisamos também de nenhuma Portugalidade, visto que nossa independência também foi reconhecida pela Santa Sé. Derrotamos os portugueses nas Guerras de Independência. E assim como eles não ficam fazendo referência às suas raízes no Reino de Leão, tampouco nós, brasileiros, devemos ficar a todo momento exaltando o Império Português. Da mesma maneira, pode-se dizer que o Brasil desenvolver o seu próprio ethos depois da independência. Tivemos durante o Período Imperial e no início da República, sobretudo, uma influência francesa e depois passamos a desenvolver nosso próprio nacionalismo e nossa própria identidade e não devemos mais nada aos portugueses! Tal fato é tão verdade, que hoje somos uma inegável potência em nosso meio, um povo único e hoje somos nós a colonizar Portugal culturalmente com nossos programas de TV, com nossas músicas e nossos artistas.

Contudo, o conceito de Ethos não condiz com o reducionismo proposto de uma mera noção nacionalista de pertencimento à mesma “comunidade imaginada”. O Ethos diz respeito aos laços culturais, sua fé e, acima de tudo, a sua finalidade e a noção nacionalista não é capaz de apagar e reescrever em seu povo um novo ethos. [Nota 3]


Resposta ao Terceiro Argumento: “Portugal e Espanha são inimigos históricos”

Não há como negar a oposição dos Reinos de Castela e Portugal tanto nas diversas guerras que travaram, como nos jogos políticos e dinásticos, onde Portugal não foi só uma vítima dos “malvados” Castelhanos que queriam apossar-se de seus domínios. Quando, em verdade, mais do que um agente passivo, Portugal tentou invadir Castela várias vezes sem provocação prévia, ambos reinos tiveram interesses no seu vizinho em algum momento. Houve brigas, guerras e também alianças e tentativas de união dinástica. Essa visão da Portugal pequena e forte, resistindo às investidas da poderosa Castela, como a da poderosa Espanha que deve anexar o território Português, foi reforçada por seus respectivos Estados Modernos, responsáveis por estabelecer uma fronteira aparentemente intransponível entre Portugal e Espanha.

Esse fenômeno, que Rafael Gambra, se refere como “exclusivo e excludente” , é aquilo que nomeamos “Nacionalismo” [1]. O anti-castelhanismo expresso no texto não passa fac-símile tupiniquim do nacionalismo português, que não possui raízes medievais, mas modernas e liberais. Noção reforçada pela lógica puramente nacional — por sinal, anacrônica — aplicada durante todo o texto, tratando Espanha e Portugal sempre como estados-nações distintos desde a consolidação da independência portuguesa, em 1143.

No entanto, vale reforçar, não é porque existe uma fronteira que separa os dois países, ou, porque existem duas formas de governo distintas que os dois povos vizinhos se distanciam em seu ethos. Ainda estamos tratando de uma Península que passou mais tempo unificada do que separada. Em suma, é um povo irmão separado por uma linha imaginária e feito “opositores” por suas revoluções liberais e pelo nacionalismo.


Resposta ao Quarto Argumento: “Os hispanistas brasileiros costumam usar José Pedro Galvão de Sousa para justificar a anexação Portuguesa por Espanha”

Vamos às fontes para constatar se a afirmativa é verdadeira, José Pedro Galvão de Sousa sobre a hispanidade diz:

“{…} Trata-se de um grupo de nações que se destaca da latinidade para, no mundo latino, constituir o bloco bem definido e diferenciado dos povos hispânicos, aos quais vêm unir-se as províncias portuguêsas do Ultramar, com os vastos territórios de Angola e Moçambique, bem como, no extremo da Asia, as Filipinas. {…}
Isso não quer dizer evidentemente que as nações hispânicas devam chegar a constituir um super-Estado. O objetivo a alcançar não é a supressão das soberanias nacionais, mas sim a cooperação efetiva daqueles povos numa emprêsa de dimensões universais, mantendo-se os traços peculiares desta comunidade imensa, espalhada por várias partes do globo, e reforçando-se a consciência da origem histórica de tais povos, a sua maneira de ser e a sua unidade espiritual . O que, se não chega a ser um super-Estado, é mais do que uma simples aliança ou um concêrto de nações motivado por razões transitórias e meramente políticas ou econômicas. [3]

Diferente do que o meu opositor diz, José Pedro Galvão de Sousa é contrário à composição daquilo que chama “superestado”, ou seja, de uma união política entre Espanha, Portugal e suas antigas colônias, e propõe a cooperação entre povos que possuem os mesmos “traços peculiares”, com respeito aos governos estabelecidos. Cada vez torna-se mais patente que o autor do texto não leu uma página sequer de um autor tradicionalista.


Conclusão:
Com as contraposições apresentadas, pode-se concluir que o autor do texto, acabou criando um espantalho acerca da Hispanidade, confundindo-o com o Iberismo, que é um projeto político, ideológico e nacionalista. Como também confundiu a noção de ethos com uma noção de pertencimento à mesma nacionalidade. Além do mais, o autor não conhece a obra de José Pedro Galvão de Sousa e tentou usá-lo como um espantalho para justificar uma suposta unificação entre Portugal e Espanha em termos políticos, a qual o autor brasileiro jamais defendeu. Por fim, a página, suposta defensora de “Tradições Medievais” prefere ser caudatária de uma noção nacionalista e moderna do Nacionalismo Português — mais alheio ao Brasil do que a noção latina de hispanidade — , em oposição à uma verdadeira tradição medieval, a qual é patente seu desconhecimento e desprezo.


Referências Bibliográficas:

1- G.K. Chesterton — O Que Há de Errado com o Mundo
2- Rafael Gambra — Patriotismo y Nacionalismo
3- José Pedro Galvão de Sousa — O Brasil no Mundo Hispânico. P. 10

NOTAS:
Nota 1 — Os reinos da Hispânia que surgem da resistência e da expansão do reino das Astúrias. Portugal era um condado vassalo do reino de Leão.

Nota 2— A questão de Ethos comum não é um fenômeno restrito à hispanidade, existe também o Caso Bávaro-Austríaco. Que comungam a mesma origem, o mesmo traço psicológico e mesmo espírito configurador.

Nota 3 — Visto que o Ethos está relacionado com o espírito e a vontade que, em determinado momento, moveu e configurou os povos e que precede sua configuração nacional.
Se a definição de Ethos partir de um fator externo, como um conjunto de traços de uma cultura puramente pedestre – como a vestimenta, cancioneiro popular, Folclore, traços arquitetônicos -, não é possível falar em Ethos em canto nenhum do mundo. Cada país possui suas “nações culturais”, bem definidas. Como por exemplo: A “nação cultural” estabelecida no nordeste do Brasil e nos Pampas. Dessa forma, não seria possível sequer definir uma “Brasilidade”, “Portugalidade” ou uma “Espanidade”.

POR: RAFAEL GRANADO