O exílio da Babilônia como paradigma da existência humana

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A Sagrada Escritura é um tesouro incomensurável. Nela encontramos, através da história do povo de Deus, a essência da natureza humana. O povo judeu tem uma trajetória longa e complexa que passa por guerras, conflitos internos, cativeiros, dominações e outras situações que fazem de sua permanência na história por si só um verdadeiro milagre. Dessa trajetória conturbada lembramos frequentemente do êxodo no Egito e a libertação de Moisés. E de fato, o êxodo ocupa lugar de destaque na tradição judaico-cristã, pois, nele foi instituída a festa da páscoa, a aliança com Deus, a Lei. Mas, há também outro evento de grande importância que por vezes não é suficientemente conhecido e meditado: o exílio na Babilônia.

O exílio na Babilônia foi divisor de águas na história do povo hebreu. Depois da destruição do reino do norte (Israel) em 722 a.C. com a tomada da Samaria pela Assíria, outro reino poderoso passa a dominar a região e consequentemente o reino do sul (Judá): o império babilônico. Os babilônicos foram terríveis para Judá. Estes, sob o comando de Nabucodonosor II, exerceram grande pressão econômica na região e suas retaliações à Judá resultaram na grande deportação dos citadinos de Jerusalém para as margens do rio Quebar na Babilônia, e por conseguinte a destruição da cidade e do Templo em 587 a.C. (2Rs 25, 1-17). Exílio é o nome dado às deportações ocorridas durante a dominação babilônica, onde o povo ficou privado de tudo aquilo que fazia parte de sua identidade existencial, isto é, seu Deus (identificado na figura do Templo) e sua terra prometida (Ex 3, 8).

Esse foi um dos períodos mais duros da existência desse povo. A literatura da época ilustra o sentimento de sofrimento, desolação e abandono sentido por eles (cf. Sl 137; Lm 2, 1-10). O templo de Jerusalém era onde Deus habitava em meio a seu povo. No exílio não havia templo, tampouco Jerusalém. O povo sentia como se Deus os houvesse abandonado. A problemática do exílio não está somente na vida em terra estrangeira, mas, sobretudo, no sentimento de desamparo. O Povo de Deus, sentiu-se sem Deus.

Assim, o cativeiro babilônico é paradigma da existência humana. Como estrangeiros habitamos essa terra (cf. Hb 11, 13; 1Pd 2, 11). Apesar de confortados pela fé, também nós sentimos a desolação daquele povo durante o exílio. Não que a sintamos durante toda a vida, mas, nossa existência é marcada por períodos de desamparo, onde paira a incerteza e não sabemos como continuar. O exílio em si não é ruim. Paradoxalmente, num contexto onde o povo se sentia longe de Deus (que habitava no templo), foi onde cresceu sua compreensão do próprio Deus. Desalentados, os hebreus entenderam que Deus é Senhor e que vive no coração de seu povo (Jr 31, 27-30), assim, nasceu a esperança da restauração.

Dado o exposto, poder-se-á fazer paralelo entre o exílio e a doutrina do místico e doutor da Igreja São João da Cruz. Ele ensina que a alma passa pela chamada “noite escura”. Um período de deserto espiritual, onde o próprio Deus é distante e a alma sente-se desamparada. Trata-se de uma purificação da alma e dos sentidos, onde depois do deserto, não se busca outra coisa senão a união perfeita com Deus. Muitos santos passaram pela noite escura. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, viveu nesse estado de alma até o fim da vida. Deus age onde menos esperamos sua ação. Assim, onde para os homens é o fim, para Deus é o começo.

É claro, nem todo desamparo que sentimos é noite escura. Como dito anteriormente, somos como estrangeiros nesse mundo, e não encontramos felicidade senão em Jesus Cristo. A mensagem do exílio não é de conformidade com a desgraça, mas, de esperar contra toda esperança. Ainda que passemos pelas piores tribulações, onde mesmo Deus parece ausente, vivemos tempo de graça onde Deus nos prepara para o que virá. Depois da aflição na Babilônia, os exilados reconstruíram Jerusalém e o templo, mas, já não eram os mesmos. O exílio os transformou. O Senhor tirou o bem do mal e fez seu povo crescer. Assim, mesmo quando nada mais faz sentido e nos sentimos abandonados por todos; quando já não conseguimos cantar os cantos do Senhor, Deus nos ampara e tomando-nos pela mão leva-nos por um caminho nunca visto (Is 42, 16).

 Por: José Alves