O grande passo para eternidade

Artigos/Opinião

Inexoravelmente o grande passo para eternidade é a Morte. Exorto-vos sobre este tema funesto e de tão difícil aceitação. 

Inobstante, instado pelas vésperas de um ano de morte de minha amada avó Julia Cordeiro Ramos, que teve um mal súbito enquanto participava da celebração da Santa Missa e faleceu assim que deu entrada no hospital. Catecismo da Igreja Católica (CIC) n.º: 1.005: “Para ressuscitar com Cristo é preciso morrer com Cristo, é preciso ‘deixar a moradia do nosso corpo, para ir morar junto do Senhor’ (2Cor 5,8)”.

Como ensinam as Sagradas Escrituras e a Santa Igreja: a Morte é consequência do pecado original e entrou no mundo por conta do pecado do homem. cf. Catecismo n.1008. Será também, o último inimigo a ser destruído, cf. I Cor, 14,26.

Primeiramente, é um equívoco ter esperanças que após esta vida terrena, dormiríamos até o juízo final. A Santa Mãe Igreja, alegra-nos sobre nossos destinos: “Cada homem recebe, em sua alma imortal, a retribuição eterna a partir do momento da morte, num juízo particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo (…)”. Catecismo n. 1.022.

Tal afirmativa é corroborada pela Sagrada Escritura: “E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino’. Ele respondeu: ‘Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso’.”. Lucas 23, 42-43.

Superado o prelúdio, preclaro que conheço as dificuldades de se enfrentar o luto de um familiar, amigo ou parente querido e amado. Não há facilidades no tema abordado, com efeito, não há também facilidades em se ser Católico, por isso, fomos exortados a orar e vigiar sem cessar. Tal situação é tão grave que é de suma importância a ajuda técnica-profissional, e/ou de familiares e amigos para “superar” tais fases.

Foi uma grata surpresa quando vi o assunto morte abordado por Santo Agostinho, em uma fase anterior a sua conversão. Narrou no livro Confissões a dor por perder um amigo. Esta dor é conhecida por todos que perderam alguém amado: 

“Com que dor se ensombreou meu coração! Tudo o que via era morte para mim. A pátria me era um suplício, e a casa paterna tormento insuportável, e tudo o que o lembrava transformava-se para mim em crudelíssimo martírio. (…) Cheguei a odiar todas as coisas, porque nada o continha (…)”. Confissões pag. 114.

É uma fase natural do luto estar em desolação, como se nada, nem ninguém pudesse preencher o vazio que escancha nosso peito de forma voraz. Entretanto, com o tempo, abranda-se o sentimento. Assim aconteceu também com Agostinho: “Eu era miserável, como o é toda alma prisioneira do amor das coisas temporais, que se sente despedaçar quando as perde, sentindo então sua miséria, que a torna miserável antes mesmo de as perder.”. idem.

Encontrando o consolo em Deus, reconhece que devemos buscar consolo na fonte Inesgotável de Sumo Amor: “Meu Deus, eis aqui meu coração, ei-lo por dentro! Vê, porque sei, esperança minha, que me purificas da impureza desses afetos, atraindo para ti meus olhos, e libertando meus pés dos laços que me aprisionam”. Idem, pag. 116. 

Devemos compreender como ensina São João Maria Vianney que: “A morte é a união da alma com Deus.”. E Continua: “Santo Agostinho diz que aquele que teme a morte não ama a Deus: é verdade. Se estivésseis separados do vosso pai durante muito tempo, não ficaríeis felizes em revê-lo?”. Intimidade com Deus, Pag. 74.

A morte serve-nos de alerta, para que possamos viver bem, pois nossos destinos estarão selados após partirmos desta vida. Como ensina-nos São João Bosco citando Santo Agostinho: 

“Ó mortal, quando compareceres diante do Criador para seres julgado, tu te encontrarás diante de um Juiz cheio de indignação; os teus pecados te acusarão; os demônios estarão prontos a executar a sentença; dentro de ti mesmo terás a consciência que te agita e te atormenta e a teus pés o inferno estarás aberto para engolir-te. Em tal aflição, para onde irás, para onde fugirás?”. Cartas aos jovens de todos os tempos, pag. 62/63.

Dá-nos então o derradeiro conselho, São João Bosco: “Ditoso de ti, meu filho, se procedeste bem durante a vida!(idem). E também o Catecismo n. 1014 citando a Imitação de Cristo

“‘Em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos, deverias te comportar como se tivesse de morrer hoje. Se tua consciência estivesse tranquila, não terias muito medo da morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã?’.”. 

Pensemos também que tudo nesta vida é passageiro, as coisas boas deverão ser aproveitadas com amor, pois passarão e as ruins suportadas também com amor, pois também passarão. 

A conclusão, portanto, é que temos pouco tempo para fazer o bem que Deus quer de nós, pois este tempo que acreditamos ter, por vezes não nos é dado. “O tempo é o nosso tesouro, o ‘dinheiro’ para comprarmos a eternidade.”. (São Josemaria escrivá. Forja, n.º 882.

A própria Mãe Igreja nos aconselha como devemos rezar e preparar-nos para tal momento, Catecismo n.1014:

“A Igreja nos encoraja à preparação da hora de nossa morte (‘Livrai-nos, Senhor, de uma morte súbita e imprevista’: antiga ladainha de todos os santos), ao pedir à Mãe de Deus que interceda por nós ‘na hora de nossa morte’ (oração da ‘Ave-Maria’) e ao nos entregar a São José, padroeiro da boa morte.”.

São Josemaria Escrivá: “Em face da morte, sereno! – É assim que te quero. – Não com o estoicismo frio do pagão; mas com o fervor do filho de Deus, que sabe que a vida é transformada, não tirada. – Morrer?…. Viver!” (Forja, n.º 876).

Santo Agostinho, retorna ao tema, no importante momento da morte de sua amada mãe, Santa Mônica, que por anos se desfazia em prantos para que ele se convertesse. Após sua conversão, ele não mais se desesperou, e desta vez, já convertido e entregue à Cristo, ele narra: 

“Fechei-lhe os olhos, e uma tristeza imensa me afluiu ao coração, e já ia desfazer em lágrimas, quando ao mesmo tempo meus olhos, dóceis ao enérgico poder de minha vontade, fechavam sua fonte até seca-la. Como foi dolorosa essa luta! Foi então, quando ela deu o último suspiro que o menino Adeodato se pôs a chorar aos gritos; mas, reprimido por todos nós, se calou. Deste modo sua voz juvenil, voz do coração, reprimiu em mim essa espécie de emoção pueril que me provocava o pranto. Porque não julgávamos conveniente celebrar aquele luto com queixas lastimosas e gemidos, com os quais se costuma deplorar frequentemente o triste destino dos que morrem ou sua total extinção. A morte de minha mãe nada tinha de triste, e ela não morria por completo, e disto estávamos certos pelo testemunho de seus costumes, por sua fé não fingida e outras razões irrefutáveis”. Confissões, p. 265.

Eu ouvi, certa feita de uma pessoa, que daria todo o tempo de vida para dar mais um único abraço em um parente que havia falecido. Deveras sentir uma dor imaginável. Esse abraço será dado, não nesta vida, porém, mas na que há de vir. A saudade insone, prova-nos que houvera amor outrora.

Portanto, vivamos bem, desapegados das coisas desse mundo e suportemos com paciência o vale de lagrimas que um dia terá fim, para que possamos, ao fim desta vida, dado o grande passo, sejamos acolhidos por Nosso Senhor Jesus Cristo que se entregou por nós à uma morte ignominiosa. 

Quanto a quem me inspirou a escrever este texto, ainda ei de abraça-la, com fraterno amor, pois pelo testemunho dado de vida devota à Virgem Santíssima e ao Divino Pai Eterno, tenho esperança do reencontro, pois “é morrendo que se vive para vida eterna”, como dizemos na oração de São Francisco.

Por: Thiago Salomão