Ser uma obra-prima de Maria

Artigos/Opinião
Se Maria fosse diferente da mulher que foi, teríamos um outro Cristo para adorar e seguir. Sendo Ele o mais terno, o mais sensível, o mais obediente, o mais solícito dos filhos, foi marcado profundamente pelas orientações e exemplos da Mãe, no contexto de um convívio íntimo entre ambos. Assim, diante da cruz, Maria não oferecia ao Pai apenas o sacrifício do fruto biológico de suas entranhas; também oferecia a obra mais refinada de seu Imaculado Coração, impressa na alma humana de seu Jesus.
 
Neste momento supremo de sua entrega ao Pai, Cristo enlaçou cada um de nós com o amor materno de Maria: fez dela verdadeiramente nossa Mãe, fez de nós verdadeiramente seus filhos (cf. Jo 19, 27). Ele quer conosco seguir novamente os passos de sublime ternura, incomparável sensibilidade, gloriosa obediência, divina solicitude para com Maria, para que também nós sejamos marcados profundamente por Ela. É assim que Jesus quer compartilhar conosco a mesma educação e as mesmas influências, como nosso irmão maior.
 
Porque a rainha dos corações, a medianeira de todas as graças, foi constituída por Deus como co-autora da obra-prima que será nossa alma no céu. Como a mãe que, conforme seu próprio gosto e engenho, arruma o filho pequenino para se encontrar com um grande rei,  escolhe sua roupa, dá banho, penteia seu cabelo, perfuma seu corpo, ensina a se comportar, tudo para tornar o filho agradável à vista do rei, para lhe dar o reconhecimento que tamanha majestade merece. Assim Maria recebeu a incumbência de nos preparar para o dia do grande abraço com a Santíssima Trindade.
Deus nos verá e reconhecerá em nós os traços daquela que tanto o agrada. Pois para Deus, Maria é um oceano de deleite, de satisfação, de júbilo. É propriamente dela que Ele fala, quando diz: “És toda formosa, ó minha amada, e não há mancha em ti. (…) Feriste meu coração, ó minha irmã e esposa, feriste meu coração com um só dos teus olhares, com uma só das jóias do teu colar! (…) O odor dos teus perfumes supera todos os aromas.” (Cântico dos Cânticos, 4).
 
Se Deus sentir o perfume de Maria em nós,  será mais uma vez ferido de amor, o que para nós será um acréscimo incomensurável de bem-aventurança e satisfação eterna.
 
Entregar-se assim a Maria, para que Ela imprima em nós as virtudes que quiser, quando quiser, como quiser, é o melhor modo de nos abandonarmos ao amor de Deus, tema do nosso artigo anterior.
Pois foi muito sábio o nosso Deus. Sabendo que o pecado criou em nós uma profunda desconfiança dele (quem de nós nunca sentiu um certo medo quando pensou “seja feita a vontade de Deus”?), sabendo a dificuldade que pode ser inicialmente para nós nos abandonarmos nas mãos daquele que será nosso Juiz, Deus criou a doce Maria, que não julga, que é só misericórdia, que é totalmente Mãe.
 
Então, faça a experiência de se entregar a Maria. Coloque nas mãos dela todo o seu entendimento, toda a sua vontade, toda a sua imaginação, seus afetos, seus interesses, medos, bens, tempo, relacionamentos.
Algumas pessoas têm medo de estar tirando de Deus alguma coisa, quando pensam em se entregar totalmente a Maria. Bobagem! Lembre-se de que foi isso mesmo que fez o Verbo de Deus: Ele, sem deixar de ser todo do Pai, fez-se também todo de Maria, entregando-se a Ela, para ser moldado por Ela como o Cristo que o Pai queria nos dar. Somos membros seus e Ele quis nos associar plenamente à sua Filiação,  de modo que tudo o que Ele é por natureza,  nos é dado como participação. Ele quer ter tudo em comum conosco.
Entregue-se a Ela, para que nossa Mãe faça de você uma obra-prima para Deus, com Cristo, por Cristo e em Cristo.
Meditemos o que Maria mesma disse aos três pastorinhos de Fátima, em junho de 1917, referindo-se às pessoas que abraçarem a devoção ao seu Imaculado Coração: “serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu Trono”.
Note bem essas palavras: flores postas por Mim. Certamente, Ela terá todo o cuidado para cultivar bem essas flores, a serem postas em lugar tão excelso. Ela recebeu de Deus esse poder e  quer fazer germinar em nossos corações beleza sobre beleza, virtude sobre virtude, bondade sobre bondade, para perfumar e embelezar não um canto qualquer do céu, o que já seria muito, mas  – ó, loucura! – o próprio trono do Altíssimo. Para isso, é necessário dar a Ela toda iniciativa, todo direcionamento, fazendo-nos filhos muito pequenos que nada entendem, que nada desejam por si mesmos, porque entendem e desejam o único necessário (cf. Lc 10, 42).
Você não quer se dar de presente a Ela, para que Ela lhe aperfeiçoe e lhe dê de presente a Deus? Será tão grande a alegria compartilhada entre você, a Virgem e a Trindade já neste mundo e, depois, por toda  a eternidade!
Tenhamos em nós os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2, 5) para com nossa Mãe. Deixemo-nos plasmar por Maria, como Ele e com Ele. Para que no dia do nosso nascimento para o céu, cheia de júbilo, renovando seu Magnificat, possa a Nova Eva cantar a Deus enquanto nos conduz ao Seu Trono: “o Poderoso fez em mim mais esta maravilha, gerei um filho com o auxílio do Senhor” (cf. Gn 4, 1).
Por: Danilo Badaró Mendonça