Sobre a importância da devoção na vida cristã

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Antes de falar sobre a importância da devoção, é mister elucidar o que é devoção, uma vez que, não raro a entendemos erroneamente. Pois bem, devoção deriva do latim devotio, e possui o sentido de dedicar-se a alguém (no caso Deus) através de um voto. Ora, devoção sempre me faz lembrar de uma passagem dos evangelhos: o jovem rico. Quando este interpela Jesus sobre o que deve fazer para obter a salvação, Jesus lhe manda guardar os mandamentos. O decálogo é de fato o começo, o voto que fazemos com Deus, que em suma, pode ser resumido em amá-lo acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Entretanto, seguir a lei de Deus não é tarefa simples, pois, pelo pecado original  “O homem ficou com a inclinação para o mal e sujeito ao erro” (CIC 1707). G.K. Chesterton (grande pensador e católico) dizia que o pecado original é o único dogma comprovado, e sem surpresa alguma, ele estava certo. Basta olhar o mundo e sua história que encontrar-se-á o mal a cada esquina e isso não quer dizer que Deus não exista ou que tenha nos abandonado, na verdade, é a prova cabal da verdade de sua Palavra. Mas, deixemos esse assunto para outra hora, voltemos à devoção.

Como dizia, para o ser humano não é fácil seguir os preceitos de Deus e tantas vezes nos assemelhamos àquele povo recém-saído do Egito, que confusos, criaram ídolos para si e se esqueceram de tão grande bem que lhes fizera o Senhor. O Êxodo descreve com perfeição toda a vida do cristão, que é liberto das mazelas da escravidão do pecado, mas, que mesmo sendo livre insiste em perder sua liberdade em troca de qualquer velharia que possua o menor falso brilho que seja. A vida é êxodo, é caminho, somos peregrinos nesse mundo, e enquanto militamos na terra somos sujeitos à tentação e ao pecado. Precisamente aqui, encaixa-se a devoção.

É através da vida devota que o cristão encontro o alimento espiritual necessário para fortalecer sua alma que carece tanto de sustento, sobretudo em um mundo que lhe é hostil em tudo. Portanto, é mister entender a devoção e buscá-la fervorosamente. É preciso entendê-la porque muitos caem no pieguismo e a devoção não é isso. Devoção não é sentimentalismo barato. Não importa o quão alto você grita, quantos arrepios sente, ou quantas “línguas” você fala (não me refiro diretamente aos carismáticos, mas, àqueles que não entenderam o que é oração), porquê só uma língua é necessária: a do amor. A devoção é antes de tudo, o que eleva o homem, não só alimenta sua a alma, mas, dá-lhe a força necessária para buscar a perfeição.

Disse que a devoção me lembrava o jovem rico, e eis o motivo: aquele jovem seguia a Lei de Deus e isso, como o próprio Jesus confirmou, era suficiente para sua salvação. Entretanto, ele não conseguiu dar o passo a mais necessário para a perfeição, que consistia em vender tudo o que tinha, dar o dinheiro aos pobres e seguir o Salvador. É exatamente aqui que se percebe a importância da devoção. Nas palavras de São Francisco de Sales:

“a devoção se firma e funda num certo grau sublimado de caridade, não só nos faz prontos, ativos e diligentes na observância de todos os Mandamentos da lei de Deus, mas, além disso, estimulá-nos a fazer ponta e gostosamente quantas mais obras boas possamos…”

Como explica o santo, a devoção parte da Lei de Deus e nos ajudá a observá-la, mas também nos faz generosos para com Deus. Somente almas devotas estão prontas para seguir a vontade de Deus, que não obstante, na maioria das vezes não é a nossa própria.

Por: José Alves da Cruz Neto