Todos são iguais perante Deus?

Artigos/Opinião
Deus é nosso Pai. Mas isso se dá em dois sentidos:
  1. Porque nos criou à sua imagem e semelhança. Nesse sentido, todos os homens são filhos de Deus.
  2. Porque nos adotou como filhos pelo Batismo, fazendo-nos participar da filiação do Verbo Eterno, em Jesus Cristo, do qual nos tornamos irmãos e co-herdeiros da glória, se nos mantivermos na graça. Neste sentido, somente os que permanecem enxertados no Corpo Místico de Cristo são filhos de Deus. “A todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12).
Temos que ter muito cuidado aqui, porque há uma tendência nociva que prejudica demais a vida espiritual das pessoas. A tendência é aplicar a Deus os nossos paradigmas modernos, fazendo uma falsa imagem de um deus adaptado a esses paradigmas.
A modernidade surgiu com ideais de liberdade individual e de igualdade entre os indivíduos, buscando destruir todo tipo de hierarquia. A partir da modernidade foi se estabelecendo a ideia, por exemplo, de que “todos são iguais perante a lei”. Mas nosso Pai não é o Deus da Modernidade, não podemos simplesmente dizer “todos são iguais perante Deus” ou “Deus ama a todos por igual”.
Ao contrário. Se pensarmos bem, Deus quebra esse paradigma moderno em muitos aspectos. São Paulo nos diz na Carta aos Efésios: “a cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4, 7). Existe, pois, uma predestinação para cada um, um lugar próprio para cada um no céu, preparado pela bondade de Deus. Não seremos todos iguais, como os anjos não são todos da mesma hierarquia. Mas seremos um só Corpo, como Deus é um, e como Deus será tudo em todos.
Além disso, na 1a Carta aos Coríntios, depois de falar dos diversos dons do Espírito Santo, São Paulo diz que “o Espírito distribui todos esses dons, repartindo a cada um como lhe apraz” (1Cor 12, 11).
Isso nos faz lembrar a parábola dos trabalhadores da vinha, em que o dono paga de forma flagrantemente desproporcional aos trabalhadores e, quando questionado por alguns deles, diz: “Não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?” (Mt 20, 15).
Por fim, Jesus deixou entrever que existe, sim, uma hierarquia no céu, pelo menos em duas oportunidades. Quando disse que quem descumprir o menor dos mandamentos será menor no reino dos céus (Mt 5, 19) e quando disse que não houve ninguém maior que João Batista, mas que o menor no reino dos céus é maior do que ele (Mt 11, 11).
Além disso, escolheu um só dos Apóstolos para ter autoridade especial, e isso continua com o Papa. Não estabeleceu uma “Igreja sinodal”, mas hierárquica.
E Nossa Senhora de Fátima não apareceu aos três pastorinhos por igual: Lúcia via, ouvia e falava com ela; Jacinta via e ouvia; Francisco só via.
Quem assim dispôs as coisas não é o Deus da modernidade, não são todos iguais perante Deus.
Portanto, é modernismo nefando simplesmente ficar com o primeiro sentido da expressão “Pai”, e ignorarmos o segundo sentido. Quem o faz, chega ao relativismo religioso, pois considerará que todas as religiões são iguais, e não terá nem o dom da Piedade, nem ardor missionário para verdadeiramente evangelizar.
Medite nisso de vez em quando: alegre-se porque, por total gratuidade por parte de Deus, você recebeu o Batismo que muitos não receberam, você tem a Eucaristia que muitos não tiveram. E, ainda que você seja o menor do reino dos céus, será maior do que um Sócrates, um Aristóteles, um Mahatma Gandhi, um Confúncio, porque neles nunca habitou a graça santificante. Que mistério é a eleição de Deus, totalmente gratuita!!!
Por: Danilo Badaró